Maíra F. Guimarães

Toma banho de chapéu, não espera o papai noel, porém discute Carlos Gardel, entre outros, além de ser uma metamorfose ambulante.
Então vá, faça o que tu queres!

Alice vai ao Labirinto

Duas garotas sonhadoras vão parar em mundos sombrios e estranhos, um paralelo entre Alice no País das Maravilhas e o Labirinto.


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Existem estórias que são irresistíveis e possuem ingredientes essenciais como fantasia, surrealismo, viagem e mistério. Assisti novamente ao filme “Labirinto – a magia do tempo”, clássico dos anos 80, dirigido por Jim Henson, produzido por George Lucas e estrelado por David Bowie e não pude deixar de associa-lo a outro clássico, só que dessa vez da literatura, o livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll.

Impossível não notar semelhanças entre Sarah (Jennifer Connelly) a protagonista do filme e Alice. Ambas são garotas que passam por um momento de amadurecimento, transição da adolescência para fase adulta, são sonhadoras, gostam de ler, e possuem imaginação fértil. Também se veem perdidas em mundos estranhos e sombrios.

Esses novos mundos de fantasia, extremamente sombrios, encantam e também assustam, já que aparentemente não existem regras. O elemento do labirinto é muito usado tanto no filme como no livro, onde as personagens precisam sair de situações desafiadoras e que as delimitam. As paisagens surrealistas ajudam a temperar esse cenário, no qual não é fácil distinguir as coisas. Ambientes que remetem a obras de Salvador Dali e Escher se misturam com componentes da natureza. Aliás, a obra de Escher, Relatividade, está muito presente no filme, a qual encontramos na parede do quarto da protagonista e que depois ganha contornos reais em cena.

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Alguns pontos são muito parecidos, as protagonistas sofrem uma queda logo no início das narrativas, Alice quando segue o coelho e Sarah quando adentra uma porta dentro do labirinto, ocasião esta que marca transições importantes nas tramas. Espelhos são emblemáticos e aparecem em experiências marcantes, como no momento em que Sarah dança com Jareth (David Bowie) em uma bolha e depois com ajuda de um espelho se liberta, ou quando Alice se usa de um para acessar o outro mundo (daí vem o título Alice Através dos Espelhos do segundo livro), espelhos podem tanto libertar como aprisionar, mas de qualquer forma representam portais de passagens. Alimentos têm um papel importante e simbólico, Sarah come uma fruta que a leva a ter alucinações e Alice vive crescendo e diminuindo conforme se alimenta, estes fatos nos lembram da queda de Eva e a comida serve como um elemento de alerta.

Durante a jornada os personagens encontrados apresentam características semelhantes, são todos peculiares e representados por anões e gnomos, ou animais que se comunicam, como gatos, coelhos e lagartas. A noção de normalidade e cordialidade passam longe, todos têm personalidades fortes, são enigmáticos e se comunicam através de charadas, onde nem tudo é o que parece ser; o que dificulta muito a trajetória de Alice e Sarah, porém as enchem de significados em que a aparência é apenas um mero engano.

Os antagonistas são simplesmente marcantes. São tiranos, egocêntricos, trapaceiros e se usam do poder e de chantagem contra outros personagens. A famosa frase da Rainha de Copas, “cortem- lhe a cabeça”, pode muito bem ser adaptada para a ameaça de exilar todos os desobedientes para o pântano do fedor eterno de Jareth, interpretado belamente por David Bowie e que ainda nos presenteia com algumas músicas para o filme.

Inspirações e coincidências a parte as duas obras no mostram, através do simbolismo, as dificuldades de se adentrar a fase adulta. É possível notar rupturas de personalidade tanto em Sarah como em Alice ao longo das tramas, onde ambas precisam tomar decisões importantes e se posicionar diante de um novo mundo.


Maíra F. Guimarães

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