Maíra F. Guimarães

Toma banho de chapéu, não espera o papai noel, porém discute Carlos Gardel, entre outros, além de ser uma metamorfose ambulante.
Então vá, faça o que tu queres!

A gourmetização da Rua Augusta

O ar underground não desapareceu por inteiro do Baixo Augusta, mas já é possível encontrar inúmeras obras anunciando prédios de luxo, fechamento de tradicionais casas noturnas e muitos estabelecimentos gourmets com preços elevados.


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A Rua Augusta é um ponto estratégico de São Paulo que liga o bairro nobre do Jardins ao Centro da cidade, a rua se divide em antes da Avenida Paulista e depois. A Paulista serve como uma faixa divisória entre o luxo e o underground. O ambiente do Baixo Augusta é um ponto de encontro entre diferentes estilos que convivem bem em um cenário democrático e alternativo.

Moro no Baixo Augusta há mais de cinco anos e o que eu pude perceber nesse tempo foi uma grande mudança. Primeiro uma Rua totalmente diferente com muitas casas noturnas e um cenário voltado para a cultura alternativa que aos poucos começou a mudar. Não que o ar underground tenha desaparecido inteiramente, mas já é possível ver inúmeras obras anunciando prédios de luxo, fechamento de tradicionais casas noturnas e muitos estabelecimentos gourmets com preços elevados, o que vem descaracterizando a Rua de como ela era conhecida. Friso que ainda é possível achar muitas coisas legais e alternativas, mas a impressão que dá é de que essas opções desaparecerão de fato com o tempo.

Por ser um lugar importante de São Paulo esta icônica rua já sofreu muitas mudanças e também altos e baixos. Passou por uma fase de esquecimento e decadência, como toda parte central da cidade. Posteriormente foi revitalizada e atualmente tenta lidar com a alta valorização da região e especulação imobiliária, vide o fechamento de casas tradicionais como o Vegas e o Studio SP. Um dos exemplos mais atuais é o impasse do Parque Augusta que corre o risco de desaparecer em prol de investimentos imobiliários, mas ainda resiste por causa do envolvimento da população que luta por mais espaços verdes, sociais, culturais e democráticos na cidade.

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A Rua Augusta era, em sua maior parte, um local com alto índice de prostituição e bordéis que aos poucos começou a abrigar também uma cena cultural forte, tudo junto e misturado, o que é justamente o mais legal da região, a ampla diversidade. Porém com a grande higienização do lugar os bordéis têm diminuído. A demolição do Kilt (um tradicional bordel com arquitetura muito característica e peculiar em forma de castelo medieval) foi o marco desta mudança, um dos símbolos da vida noturna da região foi ao chão para dar lugar,aparentemente, a um estacionamento, modalidade preferida de empreendimentos em grandes cidades do Brasil.

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A cena cultural tem se enfraquecido, é claro que ainda podemos encontrar cinemas muito bons (ainda mais com a reabertura do Belas Artes na Consolação), shows bacanas e teatros legais, principalmente na praça Roosevelt. Mas sabemos que casas como o Studio SP (conhecido por revelar ótimos artistas) fazem falta, e muitas outras que ofereciam opções de bons shows a preços acessíveis hoje são apenas baladas com foco em festa open bar e temática neon. O puro entretenimento a preços elevados parece sufocar os movimentos artísticos mais genuínos e democráticos.

Estar inserido em um momento de mudanças é interessante porque é possível ver a transição, vivenciar os dois mundos. Enquanto ando pela rua visualizo esqueletos, prédios que irão surgir, grandes, imponentes, que aparentemente vão dominar a paisagem, um verdadeiro canteiro de obras. Porém ainda consigo conviver com meus inferninhos preferidos, com os botecos de sempre, assistindo a bons filmes que só passam aqui e ainda frequentando shows interessantes sabendo que um dia posso voltar e não encontrar mais aquela portinha, que pode ter se transformado em um restaurante japonês, em uma loja de roupas modernas ou em um estacionamento de food truck. A tendência é gourmetizar, mas enquanto isso vou aproveitando o que resta, o final da festa, porque a Augusta ainda vive!


Maíra F. Guimarães

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