Maíra F. Guimarães

Toma banho de chapéu, não espera o papai noel, porém discute Carlos Gardel, entre outros, além de ser uma metamorfose ambulante.
Então vá, faça o que tu queres!

Os submersos e os Salvos – A história de um Sobrevivente

“... considera-se tanto mais civilizado um país, quanto mais sábias e eficientes são suas leis que impedem ao miserável ser miserável demais, e ao poderoso ser poderoso demais”.


8b2acad8f8d3ed6d34b44930fb71e3aa.jpg Primo Levi

O clássico “É isto um homem?” do judeu italiano Primo Levi, o qual sobreviveu quase um ano como prisioneiro em Auschwitz e saiu vivo de um dos maiores campos de concentração e extermínio do Terceiro Reich, não é apenas um livro que denuncia os crimes cometidos durante a Segunda Guerra, este vai além e nos faz refletir como homens livres sobre nossos próprios rumos.

A primeira coisa que é exterminada em um campo como este é a sua humanidade, todos os seus pertences eram levados, inclusive documentos, não havia mais contato com amigos e familiares, a não ser por um golpe de sorte de se encontrar alguém conhecido dentro do próprio campo, as necessidades mais básicas e dignas estavam sempre aquém do mínimo necessário, virava-se um número o qual é tatuado nos braços e marcado nos uniformes e é assim que ocorria a identificação deste momento em diante. Antes de perder a vida muitos perdiam a própria personalidade e identidade.

Auschwitz-16.jpg Campo de Auschwitz

A luta pela sobrevivência era diária, e são nesses momentos que Primo levanta pontos muito contundentes como a questão de como o meio no qual estamos inseridos pode mudar nossas características congênitas. “Fechem-se entre cercas de arame farpado milhares de indivíduos, diferentes quanto a idade, condição, origem, língua, cultura e hábitos, e ali submetam-nos a uma rotina constante, controlada, idêntica para todos e aquém de todas as necessidades; nenhum pesquisador poderia estabelecer um sistema mais rígido para verificar o que é congênito e o que é adquirido no comportamento do animal-homem frente a luta pela vida”.

E quando este meio é extremamente hostil, com regras dúbias e relativizadas, onde noção de certo e errado são adaptáveis e a moral antes aprendida para se viver em um lugar comum não ajuda, muito pode e deve ser adquirido. Um bom exemplo é o roubo, algo condenado em nossa sociedade, era uma das únicas formas de sobrevivência dentro de Auschwitz. Roube para uso próprio, roube para negociar, de fato existia um comércio de trocas dentro do Campo, porém alguns roubos poderiam ser punidos, sendo assim, sobreviver também acarretava correr riscos. Sucumbir era mais fácil mas muitos estavam dispostos a seguir em frente, a lutar, a resistir, a se adaptar, por mais infeliz que fosse sua subsistência.

Vivemos presos em morais dicotômicas como bem e mal, certo e errado... e observando um caso desses é possível notar quanto nossas convicções, nossos códigos de éticas, nossas “verdades” são frágeis e fáceis de serem quebradas em diferentes situações em que a relativização dos acontecimentos pode mudar toda a ordem vigente.

dfebeee9b0a0fbcbe74e642a5eb58b2f.jpg Primo Levi

A contagem de tempo, algo tão importante e valioso no nosso mundo de homens livres, era controversa e difícil de ser realizada, existia a alvorada, o trabalho durante o dia e o recolhimento durante a noite, o amanhã nem sempre existia, sendo assim planos a longo prazo eram complicados de serem elaborados.

O livro também tem suas licenças poéticas, como as citações de o Inferno de Dante para exprimir sentimentos. De fato, aquela pessoa que existia antes morreu e entrou no inferno, porém ainda existe algo que vive ali dentro, uma fagulha, uma esperança que o faz sentir humano, nem que seja através de trechos literários. “Relembrai vossa origem/vossa essência/ vós não fostes criados para bichos/ e sim para o valor e a experiência” – trecho citado de o Inferno de Dante em fragmento do livro.

Primo Levi sobreviveu, e teve a oportunidade de nos contar a sua história, a maioria, porém morreu como apenas mais um número. “É isto um homem?” nos faz refletir como os ditos homens livres, nós que às vezes colocamos nossa vida em piloto automático e não damos o devido valor a nossa sorte de poder escolher, de poder viver com dignidade, com a intensidade e plenitude que uma vida merece.


Maíra F. Guimarães

Toma banho de chapéu, não espera o papai noel, porém discute Carlos Gardel, entre outros, além de ser uma metamorfose ambulante. Então vá, faça o que tu queres! .
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