Maíra F. Guimarães

Toma banho de chapéu, não espera o papai noel, porém discute Carlos Gardel, entre outros, além de ser uma metamorfose ambulante.
Então vá, faça o que tu queres!

O Cidadão Kane de Aldous Huxley

“ O mundo é um espelho que reflete a imagem de quem o contempla”
(Aldous Huxley)


Aldous-Huxley-mortal.jpg Aldous Huxley

No livro "Também o Cisne Morre", de Aldous Huxley, o personagem principal é o milionário Joseph Stoyte, cuja fonte de inspiração foi o famoso magnata da imprensa norte americana William Randolph Hearst, semelhanças com o filme Cidadão Kane de Orson Welles a parte, as diferenças entre as obras são maiores que seus pontos em comum.

O filme é muito mais fiel a sua fonte de inspiração mostrando a jornada de Kane dentro da imprensa, sua forma suja e tendenciosa de geri-la, como influenciou guerras e a política e dessa forma construiu seus impérios, o foco é o contexto histórico social da época. Já o livro é uma ficção científica onde o personagem principal é apenas o pano de fundo para questionamentos mais profundos como a efemeridade da vida, os poderes do dinheiro e sua influência na personalidade e no ego dos personagens, uma verdadeira parábola da loucura americana e do delírio de Los Angeles.

Além da influência de Hearst para a construção de Joseph Stoyte, o livro possui relatos bem pessoais do autor, o qual havia acabado de se mudar para os Estados Unidos, mais precisamente Los Angeles. Um dos personagens, Jeremy Pordage, também é um londrino que vai passar uma temporada em solo norte americano, a serviço de Stoyte, e nota suas peculiaridades. Huxley conheceu pessoalmente Hearst e frequentou suas propriedades.

jlmcaliforniahearst20castle1.jpg Castelo propriedade de Hearst na Califórnia e inspiração para o cenário onde ocorre boa parte da trama

O título do livro é baseado em um poema de Tennyson sobre a história de Titonos, personagem da mitologia grega o qual Zeus torna imortal, porém não o concede a juventude eterna, dessa forma Titonos sofre degradações diárias e se transforma em uma sombra de si mesmo a maldizer os homens felizes que tem o poder de morrer. Um dos ciclos da vida é a morte e esta faz parte de nossa natureza.

“Os bosques apodrecem e se extinguem, A nuvem se desfaz em chuva sobre o solo. E o homem lavra a terra, e sob a terra jaz, E após muitos verões também o cisne morre.” Trecho do poema de Tennyson

Dono de todas as riquezas imagináveis Jo Stoyte quer comprar o que o homem não pode ter, sua imortalidade. O autor mostra que a busca da vida eterna é tão sem sentido quanto a acumulação obsessiva de riquezas. O desejo por posses vai além do material, o apego também se estende ao ego e a personalidade, o qual são considerados um tipo de prisão. Há um discurso transcendental, que lembra muito a doutrina budista e as palestras de Jiddu Krishnamurti, onde o desapego do próprio ego é liberdade e transcendência de um mundo sem sentido no qual vivemos. Existem outras formas de prisão, as ideológicas, como nacionalismo e patriotismo, política e religião, estas que só reforçam este apego a personalidade.

“O homem paga pelo fato de ter muito dinheiro, muito poder, e muito sexo, com uma clausura mais estreita no interior do próprio ego.”

Escrito em 1939 este livro não poderia soar tão atual, onde a busca desenfreada por posses torna o mundo um lugar mais hostil e confuso, a aparência é mais valorizada que a essência, o apego ao ego e a personalidade é ressaltado ainda mais pelos nossos avatares virtuais, estes que de certa forma são imortais, assim como desejava Joseph Stoyte.

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Maíra F. Guimarães

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