Maíra F. Guimarães

Toma banho de chapéu, não espera o papai noel, porém discute Carlos Gardel, entre outros, além de ser uma metamorfose ambulante.
Então vá, faça o que tu queres!

Diálogo no Escuro – Uma Experiência Sensorial

Diálogo no Escuro é uma mostra cultural muito diferente das que costumamos visitar, tradicionalmente vamos a exposições para observar obras, performances e arte em geral, nesta não enxergamos nada, a proposta é muito inovadora e tem como objetivo mexer com os nossos sentidos. Passamos pela experiência de um deficiente visual.


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Diálogo no Escuro é uma mostra cultural muito diferente das que costumamos visitar, tradicionalmente vamos a exposições para observar obras, performances e arte em geral, nesta não enxergamos nada, a proposta é muito inovadora e tem como objetivo mexer com os nossos sentidos. Passamos pela experiência de um deficiente visual.

A exposição é itinerante, já passou por mais de 32 países e teve mais de 08 milhões de visitantes. Está em cartaz no Unibes Cultural em São Paulo e vai até julho de 2016. Para agendar uma visita guiada entre no site: http://www.compreingressos.com/espetaculos/4823-dialogo-no-escuro

Um ponto importante é que todas as visitas são guiadas, grupos são formados por até 08 pessoas e os guias são todos cegos, o que acrescenta muito ao diálogo de fato, a troca de experiências é muito rica e há uma inversão de papéis, quem muitas vezes é guiado se torna o guia.

O percurso é variado e conta com diferentes cenários, experimentamos inúmeras texturas de pisos, paredes e objetos. Desta forma é possível desenvolver sentidos que muitas vezes não são tão usados. O tato é um deles, é impressionante como diferentes pisos e paredes fazem enorme diferença na hora de tocar e se locomover, entendi a grande importância do piso tátil. A audição foi o sentido que mais me chamou a atenção, fones de ouvido são muito usados no cotidiano e inúmeras vezes não prestamos atenção em nada ao nosso redor, um barulho mínimo de passarinhos cantando ou uma buzina já é muito significativo e nos ajuda a entender o contexto de onde estamos, com quem estamos, e a movimentação do ambiente. Entendi o valor de um semáforo sonoro (pasmem só existe dois em São Paulo, porém mais 50 serão instalados em breve na cidade).

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A relação com o grupo se mostra diferente também, as pessoas são mais solicitas umas com as outras, logo criamos uma intimidade com desconhecidos, nos tocamos com freqüência pelo percurso e precisamos escutar uns aos outros para nos guiar. É interessante porque nossa relação com o próximo costuma ser bem fria e de repente estamos desenvolvendo o toque e a audição com pessoas que não conhecemos, é sair da zona de conforto para se relacionar de outra forma. Tive a sorte de ter uma criança no meu grupo, e me pareceu que de fato elas são mais destemidas e curiosas do que os adultos; é interessante ter pessoas diferentes no grupo, como neste caso, o que tornou a experiência um tanto quanto mais rica.

Meu guia André foi uma peça muito importante durante toda a experiência, uma pessoa com sensibilidade impar e muito bem-humorada, nos ajudou muito durante o percurso e nos contou sua história no momento em que sentamos para dialogar, percebi nele como o ser humano é capaz de se superar a todo momento, até nas mais difíceis situações. Também discutimos problemas cotidianos de como a arquitetura pode prejudicar as pessoas com necessidades especiais, e como uma pequena mudança pode melhorar infinitamente suas vidas, por isso a importância da inclusão destas em planejamentos urbanos.

Passar por um exercício de alteridade como este é transformador e necessário para entendermos o próximo, para desenvolvermos tolerância, para termos um pensamento mais universal, fora da caixa e menos egocêntrico. O que mais aprendi com essa experiência foi que muitos enxergam, mas poucos tem a capacidade de observar.


Maíra F. Guimarães

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