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"é proibido pisar na grama. o jeito é deitar e rolar" (r. chacal)

victor costa

estudei filosofia, roteiro de cinema, artes visuais e comunicação | fui professor de escola pública, sou roteirista, redator e produtor cultural. vejo o mundo a partir da cidade do rio de janeiro | [email protected]

Édipo sem culpa

A história é muito conhecida: Édipo mata o pai e se casa com a mãe. “Édipo Rei”, texto escrito no século V a.C., transitou do teatro à literatura, pintura, música, filosofia, psicanálise e ganhou a cultura pop. Édipo atravessa os séculos carregando a mancha dos erros que cometeu. Mas, para nós, fragmentos pós-modernos, Édipo é realmente culpado pelo que fez?


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A história é de uma truculência quase contemporânea: Édipo mata o pai e depois se casa com a própria mãe; e de um drama extremamente antigo: Édipo faz o que faz sem consciência do que faz. Édipo Rei é uma tragédia grega escrita no século V a.C. pelo dramaturgo Sófocles. O texto transitou do teatro à literatura, pintura, filosofia, psicanálise e foi apropriado pela cultura pop desde Ígor Stravinsky, a Jim Morrison, Cazuza e Lady Gaga. Tudo começa com uma maldição: Laio, o rei de Tebas é alertado pelo Oráculo de Delfos, o Google da Antiguidade*, que seu filho (Édipo, que estava para nascer) um dia o mataria e se casaria com sua mulher, mãe de Édipo. Quando a criança nasce, Laio o abandona no mato. A criança é adotada e cresce sem saber de nada. Nadica de nada. Quando adulto, vai com frequência ao mesmo Oráculo de Delfos que um dia o revela que ele, Édipo, mataria o pai e se casaria com a mãe. Édipo, horrorizado, foge de casa (afastando-se de seus pais adotivos, que pensava ele fossem biológicos). Foge de seu destino.

Foge e cai no mundo, pé na estrada. On the road.

Um belo dia topa com um sujeito folgadão na estrada. Era Laio com sua pompa de rei. Uma discussão acontece, eles brigam. Édipo, enfurecido, ataca o rei e seus seguranças. Resultado: mata o rei e sai correndo.

Pé na estrada.

Passa tempo, passa tempo, passa tempo: Édipo chega a Tebas, que estava “sem rei” e sob o domínio de um monstro: a Esfinge. Aquela que lhe propõe o mortal enigma (“se errar morre!”): “qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?”. Édipo mata a xarada: o homem. Salva sua vida e livra Tebas da Esfinge, vira rei e toma a rainha viúva como esposa! Pronto, nosso herói matou o pai e comeu a mãe. Como Édipo é o último a saber de tudo, quando descobre o que fizera, mutila os próprios olhos e parte para o exílio.

Pé na estrada de novo.

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À leitura contemporânea, não há dúvidas sobre a sacanagem cometida por Édipo: culpado por parricídio e por incesto. Mas não é a chave de leitura contemporânea a apropriada para ler quaisquer tragédias gregas. Há uma série de conceitos que devem ser considerados, é sobre alguns desses conceitos que quero tratar aqui. Farei o papel de advogado de Édipo. Primeira informação básica que devemos ter em mente é que na Grécia Antiga não havia a ideia de culpa tal como a conhecemos hoje. Isso porque a concepção de indivíduo (onde reside a culpa) encontrava-se dissolvida na noção de coletivo. Parece surreal, eu sei, imaginar que para uma sociedade não existe a concepção de individualidade. Acontece que há um abismo temporal que nos separa daquela sociedade grega berço das tragédias da qual Édipo Rei faz parte. É a partir de Descartes, no século XVI que as concepções de individualidade e de sujeito começam a tomar a forma que conhecemos hoje. O sujeito é um dos pilares do projeto Moderno... De volta à Grécia de Édipo: o que havia naquela sociedade que nos é muito relevante aqui era a ideia de hamartía (a palavra é difícil, desculpe-me, mas não tem outro jeito) que significava o erro cometido por um membro da comunidade, erro tal que manchava toda a sociedade. Isso significava que se um membro errasse então o corpo social também errava. Mas (coisa de grego), somente quem cometia o erro podia retirá-lo do corpo social. Isso é de uma delicadeza absolutamente refinada na compreensão de responsabilidade social, mas isso é outro assunto... Agora entendemos que Édipo, nosso herói, sabe que para retirar a mancha que levou a Tebas deve sofrer um castigo a fim de limpar a sua barra e principalmente a da cidade. Por isso que conscientemente ele mutila os próprios olhos e parte para o exílio. Segunda informação básica: a função do Teatro Trágico Grego era gerar catarse nos expectadores, nos cidadãos. Catarse como purificação pedagógica da hamartía. Catarse como purgação dos (nossos) desejos mais temerosos, como matar o pai e comer a mãe. A catarse era uma maneira de prevenir rupturas no corpo social, incidindo diretamente no ponto-chave que poderia desestabilizar o coletivo: o erro que reside potencialmente em cada membro da comunidade. Para o cidadão, a Tragédia era uma forma de aprender sobre si mesmo e sobre sua responsabilidade com a própria comunidade. Édipo sem culpa? Sim, em função da inexistência, na Antiguidade grega, da noção de individualidade. Édipo não interioriza culpa. Mas sofre o castigo de seu erro porque sabe que tem de “limpar e expurgar” a comunidade de Tebas. Além disto, nosso herói, coitado, vive à mercê de seu destino: que ele próprio desconhece!

Édipo não tem, como nós hoje, a responsabilidade baseada na liberdade de seus atos, apenas a tem em aceitar tudo o que sucede às próprias ações.

Édipo sem culpa. Como então a noção de culpa edípica nos chega? Com Freud isso se explica. Mas deixo Freud para o próximo post, continuação deste artigo.

Abraços.

* Um leitor, na página do Facebook da Obvious, me alertou a atrocidade que cometo ao associar Apolo, que era consultado sobre assuntos futuros, ao Google – que normalmente consultamos sobre informações e fatos passados. Ele tem razão. Mas, fique claro, associo o Google ao Oráculo como fonte de sabedoria, tomadas as devidas distâncias temporais e conceituais.

585oedipus-rex-1895 renois.jpg Oedipus Rex, 1895 - Renoir


victor costa

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