Este texto é continuação de Firmes no leme, marujos. As duas partes foram publicadas originalmente como "Masculino, Feminino e Utopia", na Revista Filosofia (Ed. Escala), edição 76, nov. 2012.
Em “O infortúnio do guerreiro selvagem”, Pierre Clastres diz que a guerra é o atributo essencial do mundo masculino primitivo. Nas sociedades primitivas, o homem é definido essencialmente como guerreiro. Ganhar o nome de guerreiro seria como ganhar um título de nobreza na Idade Média, ou como hoje ganhar um alto cargo de chefia. Há dados muito interessantes neste texto de Clastres, como por exemplo, sobre a demografia das tribos. Segundo ele, os Guaicuru e os Abipone tiveram sua população reduzida de 25 mil pessoas para menos da metade, do século XVII ao XX. Epidemias não explicam a situação, visto que as tribos quase não tiveram contato com homens brancos. Clastres diz que as indicações de missionários que passaram pelas tribos revelam que o número de mulheres é de longe maior que o de homens e o número de crianças é baixo.
Parece que então a queda da população era provocada, não pelo excesso de mortalidade entre os homens que iam para as guerras, mas pela falta de natalidade. Diz Clastres “(...) havia poucos nascimentos porque as mulheres não queriam ter filhos (...) não seria, pois, necessário articular estes dois desejos, distintos e convergentes: desejo do social de levar para outro lugar a guerra e a morte, desejo individual das mulheres de não ter filhos. Isto é, de um lado, desejo de dar a morte, de outro, a recusa de dar a vida”.
Clastres identifica que essas sociedades primitivas marcadas pelos aspectos masculinos do guerreiro colocam o homem em posição defensiva perante a mulher, porque lhe reconhece a superioridade, devido muito em razão do poder feminino do querer-morrer coletivo que decide não se reproduzir mais.
Desde esses primórdios da civilização, a divisão das tarefas entre homem e mulher faz da atividade guerreira uma função masculina.
Existe uma relação íntima entre masculinidade e morte. “A feminilidade é a maternidade em primeiro lugar como função biológica, mas sobretudo como domínio sociológico exercido sobre a produção de crianças”. Clastres analisa uma proximidade imediata entre vida e feminilidade: a mulher é em seu ser-para-a-vida. “(...) Escravos da morte, os homens invejam e temem as mulheres, senhoras da vida”.

AH, SE EU FOSSE HOMEM
A aproximação masculinidade-morte nos leva a estudos contemporâneos sobre este problema realizados pelo brasileiro Sócrates Nolasco. Ele diz que no Brasil, de cinco pessoas executadas por dia, quatro são homens.
Por que nos dias de hoje os homens se envolvem mais em situações de violência do que as mulheres?
A hipótese, de Nolasco, é que o envolvimento dos homens em situações de violência é um fato que tem por função reparar e manter o ideário contemporâneo que margeia as ações individuais. Vejamos.
O próprio Nolasco: “na cena contemporânea, o herói tradicional é aquele que detém os privilégios que serão partilhados igualitariamente, com quem não usufrui dos mesmos, a exemplo das minorias. Para as sociedades tradicionais o herói era homem, branco e heterossexual, enquanto que para as sociedades contemporâneas passou a ser mulher, negro e homossexual. Esta mudança nas características do que confere status ao herói não foi suficiente para alterar os ideais de conquista e busca de poder presentes no mundo das tradições. Ao invés disto, eles foram estendidos a outros indivíduos viabilizando para eles o acesso a diferentes posições de prestígio e poder. Reivindicar este privilégio passou a ser um exercício recorrente que confere identidade às minorias”. Aqui o texto integral do Sócrates Nolasco.
Esses discursos “de minoria” deslocam, portanto, o herói tradicional e seu mundo – mas ao mesmo tempo reivindicam algumas características deste herói e seu mundo. Se a história dos homens patriarcais pode ser contada através das guerras, a dos homens contemporâneos também. Nolasco afirma que a masculinidade tem uma marca guerreira que não necessariamente precisa ser bélica, mas contemporaneamente a violência tem mostrado que para alguns homens ela foi reduzida a isso.
Essa masculinidade bélico-guerreira passou a ser desejada por muitos e tornou-se um “alimento” para as exigências do politicamente correto. “Foi a ideologia do politicamente correto que fez com que um avião jogasse bombas sobre o Afeganistão e em seguida um pacote de comida” .
A ideia central de Nolasco é que quando as reinvindicações do “ideário do correto” são atendidas, cria-se um mecanismo social que faz com que a masculinidade seja estendida para além das fronteiras do sujeito empírico e passa a ser adotada como uma referência de acesso ao mundo de privilégios e bem-estar. Os homens que se envolvem com situações de violência brutal são aqueles que sentem que o que os marca acidentalmente (características inatas) não confere positividade a sua identidade, a sua pessoalidade. Isso significa dizer que esses homens ficam sem pertencer a um segmento socialmente valorizado, diferente do que ocorre com as ditas minorias.
“Este novo herói tem como função continuar cedendo sua masculinidade para que ela sirva de inspiração às mudanças de gênero consolidadas depois do limiar do século XIX e nas décadas que o sucederam” .
A tese de Nolasco é bastante intrigante, trocando em miúdos, ela diz que a partir do individualismo moderno a representação social masculina entrou em declínio e depois em decadência. Este declínio chegou até o final do século XIX desencadeando “crises de identidade” e, posteriormente (a atualmente) a “crise masculina”.
Essa crise foi necessária à consolidação dos movimentos sociais de emancipação permitindo a positivação de identidades até então negativas, como de mulheres, de etnias e de homossexuais. Contudo, e essa é a novidade em Nolasco, a crise do macho tornou-se um dispositivo promotor de situações violentas na medida em que, para as sociedades ocidentais contemporâneas, ser homem passou a significar sinônimo de truculência, boçalidade ou daquele que é tipicamente incorreto.
Como diz Nolasco, fomos de Tarzan a Homer Simpson.

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