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"é proibido pisar na grama. o jeito é deitar e rolar" (r. chacal)

victor costa

estudei filosofia, roteiro de cinema, artes visuais e comunicação | fui professor de escola pública, sou roteirista, redator e produtor cultural. vejo o mundo a partir da cidade do rio de janeiro | [email protected]

Firmes no leme, marujos

No fim da Odisseia, depois da guerra de Tróia, e já na volta de Ulisses a Ítaca, lemos o episódio "canto das sereias". O que esta alegoria ainda nos diz sobre a relação do masculino com o feminino? Estudando a evolução de um caráter masculino na História, seria possível um salto de Homero a Marx?


Proponho aqui uma chave de leitura para este artigo da filósofa brasileira Olgaria Matos. Com exceção de um artigo de Maria Rita Khel, todas as citações entre aspas são do referido artigo da professora Olgaria.

Firmes no leme, marujos é parte do artigo "Masculino, Feminino e Utopia", publicado originalmente na Revista Filosofia (Ed. Escala), edição 76, nov. 2012. Boa leitura.

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No fim da Odisseia, depois da guerra de Tróia, e já na volta de Ulisses a Ítaca, lemos o episódio canto das sereias. Ulisses voltava para casa em um grande barco; ele e sua tripulação composta somente por homens. Mar adentro, Ulisses sabia que em determinada região se ouviria um irresistível canto de sereias, o qual levaria ele e sua tripulação a desvairadamente se atirarem à água e muito provavelmente mudarem o rumo de suas vidas. Importante compreender, mais adiante neste texto, o que este lançar-se ao mar pode representar. Mas na Odisseia Ulisses vence o obstáculo. Primeiro ele tapa os ouvidos de seus marinheiros com cera, depois ele se amarra ao mastro do navio. Passam assim intactos ao canto das serias.

DO MITO À RAZÃO Um detalhe nos interessa aqui. Segundo Olgaria Matos, “a alegoria do canto das sereias ilustra os extravios da razão ocidental”. A professora Olgaria, seguindo a trilha do pensamento frankfurtiano de Adorno e Horkheimer, afirma que as etapas vencidas por Ulisses na Odisseia, alegoricamente são aquelas realizadas pela humanidade: parte-se do mito para chegar à razão. Isso significa que a vitória da razão sobre mito é, nas palavras da professora, “(...) o sucesso na tarefa de deixar os instintos sob o controle desse tribunal competente que é a Razão de Dominação (...)”. De imediato, podemos então intuir que no canto das sereias a Razão é representada pelo masculino e a Não-Razão pelo feminino. Mas vamos um pouco mais além.

Para Adorno, a imagem de tapar os ouvidos dos marinheiros com cera é a representação simbólica de uma característica fundamental na lógica do capitalismo de nossos dias: “o trabalhador deve olhar em frente, atento e concentrado, ignorando tudo que se passa ao redor”. E quando Ulisses se prende ao mastro do navio, detalhe importante: ele não tapa seus ouvidos. Isso é a representação alegórica, ainda para Adorno, de outro fenômeno que vivemos: Ulisses se prende “(...) como o burguês que se recusa à felicidade tanto mais obstinadamente quanto mais dela se aproxima pelo crescimento de seu poder”.

A professora Olgaria Matos então escreve que essa experiência vivida por Ulisses e seus marujos tem sido reiterada no desenvolvimento de nossa cultura Ocidental. A maioria dos indivíduos, como os marujos de Ulisses, ignora, ou é negada ao direto de conhecer, os perigos que atravessam, além disso, é negada ao direto da beleza do canto – enquanto à minoria, que tem conquistado o direito à liderança, só o consegue ao preço do “’amortecimento e da mortificação dos instintos, em lugar de uma completa, universal e indivisa felicidade’”.

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DE HOMERO A MARX A alegoria de Ulisses e seus marujos, segundo esse ponto de vista do canto das sereias, para Adorno, Horkheimer e Olgaria, é a forma exemplar de nossa civilização alienada. Totalmente alienada. Alienação entendida por eles como fenômeno totalizador, que abrange a todos, burguesia e proletariado. Essa ideia de alienação totalizadora está no próprio Marx, em A Sagrada Família, livro no qual ele se refere às mesas circunstâncias: a burguesia se afirma na alienação e o proletariado, ao contrário, nela está negado. Essa é a chave de conexão para o salto de Homero a Marx.

O percurso desse salto é mesmo do domínio de um caráter masculino da cultura, o da supremacia da Razão frente ao Prazer. Diz a psicanalista Maria Rita Kehl que o que garante visibilidade desse caráter masculino é a presença, constante na história do Ocidente, do homem na esfera pública enquanto da mulher no espaço privado. É uma proposição lacaniana que “a mulher não existe” a partir da inexistência histórica das mulheres na esfera pública. Se as mulheres não produziram discurso que as identifique nas esferas públicas, se só produziram filhos, só se produziram como mães. Isso nos faz criar a hipótese que aquele caráter masculino da cultura é o que tem regido nossa grande História Ocidental. Aqui o texto de Maria Rita.

O caráter feminino, representado em Homero pelas sereias cantantes, seria em Marx o princípio que transcende a alienação – no sentido da sedução para o descaminho da lógica instituída. Este ser meio- monstro meio-mulher, a sereia, é vista como ser perverso por este outro ser marujo-trabalhador. Dito pela professora Olgaria, “(...) a racionalidade que rege o mundo masculino (hoje incorporando o feminino e fazendo-o cair na dimensão do mesmo, do idêntico) produz e é produzida pelo trabalho alienado, que cria uma visão alucinatória de um mundo preenchido por objetos cujo sentido se perdeu”. A experiência alucinatória é entendida por Olgaria como esquecimento do prazer, ou uma renúncia aos diretos de Eros.

Para Adorno e Horkheimer, o mundo fetichizado é este da racionalidade que marca o tempo do trabalho, cujo contraponto evidente é o tempo do não-trabalho – o da fruição de um prazer que aspira à eternidade (leia-se: atemporal, fora deste tempo do trabalho). Na esteira de Marcuse, a professora Olgaria escreve que o tempo burguês-produtivista é aquele em que ‘(...) à ‘temporalidade masculina’ se contrapõe a ‘ucronia’ feminina”. O princípio feminino da cultura é justamente esse “fora” do tempo burguês-produtivista. Vamos chamá-lo de “eterno feminino”.

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UTOPIA Na alegoria do canto das sereias, o jogar-se ao mar pode ser a representação do lançar-se ao gozo do eterno feminino; hoje: gozar o “fora” do tempo burguês-produtivista. É claro, trata-se aqui de analisar um tema pelo viés de uma alegoria, cujo sentido literal se perdeu para sempre. Mas, como lembra Olgaria, na acepção mais simples da palavra, alegoria significa “outra coisa”.

Em concordância com a professora, e com Marcuse, essa outra coisa contida no canto das sereias é para nós como uma Utopia. A utopia como negação do existente.

Neste contexto do pensamento frankfurtiano, tal como o procurei apresentar segundo pontos de vista da professora Olgaria Matos, a esperança reside na mulher para muito além das consciências particulares de cada uma ou do movimento de mulheres em geral. Marcuse afirma que a igualdade pode sim ser conquistada no plano econômico e político dentro do quadro do sistema do Capital – todavia – a igualdade não é liberdade.

Chegamos então a um ponto crucial da dialética contemporânea entre masculino e feminino. O problema, posto por Marcuse: “(...) o enfraquecimento da base social de dominação masculina, pela participação crescente das mulheres no sistema produtivo não pôs um paradeiro à Dominação”.

Continua Marcuse: “a emancipação da mulher não deve ser concebida apenas no sentido da igualdade de direitos, mas, antes de mais nada, como a afirmação de novos valores, novas exigências, novas satisfações, que o homem, nas atuais condições de produção, não pode ter”.

Isso significa dizer que mesmo depois de todas as mudanças sociais geradas dos estudos de gênero e do movimento feminista, a partir dos anos de 1960 do século passado até hoje, homens e mulheres ainda não se liberaram do constrangimento daquela Dominação, o caráter masculino da cultura. Marcuse insiste que depois da luta pela igualdade no mercado de trabalho do sistema produtivista, trata-se de lutar pelos direitos às diferenças.

A ideia é que o princípio feminino do qual estou tratando aqui comporta virtualmente (aqui estão contidas as palavras utopia e esperança) a possibilidade de harmonia ou reconciliação entre desejo e real, felicidade e razão, corpo e mente – colocados em antagonismos pela civilização masculina. Existe um caráter subversivo no eterno feminino que contesta e irrompe a “ordem estabelecida”.

“Em um mundo no qual a mecanização transformou a libido, deserotizando toda uma dimensão da atividade e da passividade dos homens e mulheres em função do trabalho para a troca e do rendimento, a ‘temporalidade feminina’, o ‘sem-tempo’ feminino adquire polissemia crítica”, escreve Olgaria.

Que sociedade seria essa em que homens e mulheres se livrariam da Dominação? Para Marcuse uma sociedade regida pelo Eros político, uma sociedade na qual o “princípio de realidade” seria o feminino e não o masculino. Uma sociedade andrógina – o que não significa que homens devam se converter em mulheres ou vice-versa. Significa que “(...) o homem e a mulher realizam, em todas as esferas da sociedade, aquelas qualidades que foram reprimidas no curso da história, que foram constrangidas ao silêncio e confinadas à esfera do privado”. Essa sociedade andrógina requer um ser humano completamente distinto do atual. Conseguiremos?

Até a próxima, um abraço.

Leia a continuação deste artigo: A crise do macho. p.s.: Estou devendo a 2ª parte do Édipo sem culpa. Em breve, prometo.


victor costa

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