pindorama

"é proibido pisar na grama. o jeito é deitar e rolar" (r. chacal)

victor costa

estudei filosofia, roteiro de cinema, artes visuais e comunicação | fui professor de escola pública, sou roteirista, redator e produtor cultural. vejo o mundo a partir da cidade do rio de janeiro | [email protected]

Recepção do marxismo no Brasil

O leninismo foi o caminho que o Brasil usou para se aproximar do marxismo. Um nome merece destaque neste contexto: Octavio Brandão, um dos principais teóricos do PCB na década de 1920. De que forma nós recepcionamos o marxismo nessa nossa Terra de Pindorama?


O Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi fundado em 1922, em Niterói, estado do Rio de Janeiro, na época que havia certa carência de uma sólida interpretação marxista no Brasil. O leninismo foi o caminho que usamos para nossa aproximação efetiva com o marxismo. Um nome merece destaque neste contexto: Octavio Brandão, um dos principais teóricos do PCB na década de 1920.

Marxismo - BRASIL ESCOLA.jpg

Para se ter melhor noção do desconhecimento do marxismo em nossas terras, as palavras do próprio Brandão: “(...) Procurava ansiosamente quem me respondesse às três perguntas de sempre: ‘Quem é Lênin; que é o marxismo; que significa a Revolução Socialista na Rússia?’ Não obtive nenhuma resposta concreta até 1922. Tudo vago, incerto. Ou completamente errôneo. Na época, ninguém conhecia o marxismo no Brasil. Que atraso!”

Em 1923, Brandão fez a primeira tradução brasileira do Manifesto Comunista de Max e Engels, a partir de uma versão francesa. Contudo, o próprio escreveu que naquele momento “as influências decisivas sobre o PCB foram as de Lênin em primeiro lugar, de Marx e Engels em segundo lugar” , destacando a obra O Imperialismo, fase superior do capitalismo, de Lênin. Nesta obra, a tese de Lênin, do imperialismo como fase superior do capitalismo, tem como base um conceito linear e etapista da História. Destaco deste texto duas ideias-chave de Lênin: que a evolução capitalista se dá de diversas formas, conforme as especificidades da industrialização de cada país; e que a tomada da consciência de classe do proletário deveria se dar a partir da intervenção do Partido em meio as massas.

Em linhas muito gerais, passou-se o seguinte com Lênin: Marx e Engels escreveram que a revolução seria proletária e contra a monarquia e a burguesia. Os proletários tomariam o poder e encaminhariam o socialismo. Mas para que isso ocorresse, seria necessário uma mentalidade proletária revolucionária em um país que tivesse um parque industrial avançado. A Russia não tinha nada disso. Para sair da enrascada, Lênin adapta o marxismo. A Rússia era basicamente um país agrícola, ao invés de “proletários” tinha “camponeses”. Lênin prôpos então que os camponeses e os operários urbanos se unissem, organizados e direcionados pelo Partido Comunista, para formar a massa revolucionária.

Chegou a 1917.

marx-peronista.jpg

Adpatar Marx deu o que falar. No campo dos conceitos, pairavam dúvidas sobre os limites da fidelidade ao marxismo. Isso levou George Lukács a publicar, em 1923, o clássico História e Consciência de Classe. Nele, Lukács tenta (re)construir fortes bases filosóficas para o marxismo e argumentar em favor de Lênin. A questão posta por Lukács: o que é o marxismo ortodoxo? Ele responde que o marxismo ortodoxo é um método dialético com validade universal, por meio do qual é possível elaborar leis gerais que poderiam ser aplicadas tanto à análise dos fenômenos naturais como dos sociais – o materialismo histórico de Marx pode então ser analisado separadamente de sua atitude prático-revolucionária e transformado numa teoria do conhecimento, com leis universais, que permite compreender a luta de classes ao longo da História. História e Consciência de Classe marcou profundamente a carreira de Lukács, que depois discordou das ideias do livro... (isso dá o que falar, deixemos o tema para outra ocasião).

Voltando ao Brasil de 22. Os intelectuais do PCB nascente, portanto, tinham conhecimento do livro O Imperialismo... de Lênin e de algumas obras de Marx. É neste cenário que surge o texto Agrarismo e industrialismo: ensaio marxista-leninista sobre a revolta de São Paulo e a guerra de classe no Brasil, escrito lá pelo Brandão, de 1924 a 1926.

A partir desse texto, o PCB estabeleceu seu solo teórico: o etapismo.

O etapismo é uma análise materialista de nosso processo político brasileiro. Em resumo: como o Brasil ainda era essencialmente agrícola e dominado por uma estrutura de poder “semifeudal”, atrelado ao imperialismo, deveriam os comunistas, em primeiro lugar, aliarem-se à pequena burguesia comercial e industrial para juntos “vencerem a etapa” da revolução democrático-burguesa. Em segundo lugar, e finalmente, encaminhariam a revolução socialista. Essa concepção muda, paulatinamente, nas décadas seguintes, o próprio Brandão – em 1957 – disse que cometeu erros graves em Agrarismo e industrialismo. O assunto dá bastante pano à manga, como com Lukács, não vou entrar no mérito.

Pois bem, essa é uma parte - ou versão - da recepção do marxismo no Brasil. Até o próximo texto. Um forte abraço.


victor costa

estudei filosofia, roteiro de cinema, artes visuais e comunicação | fui professor de escola pública, sou roteirista, redator e produtor cultural. vejo o mundo a partir da cidade do rio de janeiro | [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// @destaque, @obvious //victor costa