Emily Kusano

Reflexões pessoais e transferíveis. Algumas palavras, diversas ideias e milhões de sentimentos.

Resquícios da Bomba Atômica de Nagasaki e a Teoria do Caos

Reflexo da bomba num conjunto de relatos e visões de meu pai e minha avó, ambos nascidos em Nagasaki.


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Detalhes e sutilezas. A teoria do caos diz que os sistemas e eventos muito simples ou pequenos podem causar comportamentos ou eventos muito complexos. Uma mínima mudança no começo de um evento qualquer pode gerar consequências desconhecidas no futuro. Desenvolvida pelo cientista Edward Lorenz, é também conhecida como efeito borboleta devido a frase “O bater de asas de uma borboleta no Brasil pode desencadear um tornado no Texas”.

Assim foi em 9 de Agosto de 1945, em que a bomba Fat Man estava programada para cidade de Kokura, mas devido a má visibilidade o avião alterou a trajetória para Nagasaki, onde fazia sol. Dessa maneira, um pequeno detalhe meteorológico mudou o rumo da história. Disseminou o caos, dissipou pessoas e cravou uma eterna cicatriz na humanidade.

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bone-glass.jpg Ossos da mão fundidos com vidro - Museu da Bomba Atômica Nagasaki

Minha avó tinha 17 anos e estava em Goto, uma ilha na província de Nagasaki. Sua cunhada teve metade do corpo queimado e sobreviveu, mas a filha bebê morreu queimada. Ainda há parentes que poucos anos atrás morreram subitamente de causas desconhecidas e até casos de suicídio sem nenhum motivo aparente. O seu irmão ainda mora na cidade de Nagasaki.

O avô de minha avó era samurai, seu sobrenome de solteira é Yamashita, uma linhagem desses guerreiros. Eles seguiam rigorosamente um código de honra, se você assistiu o filme do Wolverine (vídeo aqui), talvez lembre de algumas pessoas que cortam a barriga antes da bomba cair. Isso é o harakiri (hara= barriga, kiri=corte), praticado na realidade por samurais, é um suicídio que consiste em cortar a barriga horizontalmente expondo as víseras, seguido de um corte vertical, posteriormente outro samurai o decapitava. Era uma forma lenta e dolorosa de morrer. Outra conduta era de lutar somente com alguém que está com uma espada e não atacar o inimigo de surpresa. Também a de preservar a katana(espada) na geração, passar para o filho mais velho, nunca para alguém fora da família. Os samurais pertenciam classe da elite, assim minha avó possuia uma vida relativamente boa e confortável, mas tudo isso mudou.

Anos depois da guerra o Japão ainda sentia resquícios da destruição e não possuia mantimentos nem emprego para toda população. A solução encontrada para crise foi de diminuir o número de habitantes com a emigração. Em contrapartida o Brasil tinha o interesse na mão de obra para cultivo, firmou se assim um acordo imigratório entre ambos. O processo de imigração também ocorreu em outros países, grande parte de imigrantes do Brasil são alemães, japoneses e italianos, justamente os países que perderam a segunda guerra mundial.

Meus avós saíram do porto de Yokohama em 1959 no navio Africa Maru, depois de 45 dias chegaram em Recife no Estado de Pernambuco. Eram um dos últimos navios da imigração japonesa, como já haviam pessoas instaladas no Sudeste e Sul, o interesse do governo brasileiro era de explorar agricultura no Norte e Nordeste. Foram para a colônia de Punaú, juntamente de mais 10 famílias e morararam numa das 11 casinhas iguais do local.

IMG_3256.JPG Passaporte da minha avó

Na época a agricultura em São Paulo e Paraná eram os cafezais, Pará era pimenta do reino, no Nordeste eram arroz, melão, melancia, tomate e na Paraíba abacaxi.

Depois de aproximadamente 5 anos instalados, muitos imigrantes se sentiram enganados pelas prósperas propostas, processando assim o governo do Japão. Alguns ganharam a causa e retornaram ao país, outros foram para o Sudeste e pelo que se sabe, atualmente restou somente um colono em Punaú. Meus familiares em busca de uma vida melhor, se mudaram várias vezes, moraram em Cabo, Cotia, Arujá e outras cidades, produziam e vendiam flores na estrada.

photo (5).JPG Banco de dados com os registros dos imigrantes vindos entre 1908 e 1973. A consulta é no site do museu historico da imigração japonesa do Brasil, no ícone "navios de imigração" no canto direito. Ou diretamente pelo link

Os caminhos feitos pelos meus avós e cada uma das suas pequenas escolhas décadas atrás definiram toda uma rede de consequências na vida de outras pessoas. Como numa árvore, a cada decisão seguiria por um galho da qual partiriam outros ramos, levando a locais totalmente diferentes se mudassem o primeiro caminho. Em paralelo a teoria das cordas, existiria assim uma infinidade de possibilidades de vida. De maneira simplificada a ideia é que cada partícula fundamental no modelo padrão é composta de minúsculas cordas, dependendo do comprimento e vibração, produzem diferentes partículas. Cada oscilação diferente da corda produz algo diferente, podendo existir centenas de milhões de outros universos. Como dito acima, um pequeno detalhe do tempo mudou toda a história, posteriormente a sequência de decisões (oscilação) de meus avós e outras pessoas continuaram essa rede, num conjunto de infinitas possibilidades, resultando no presente. E aqui estou agora.


Emily Kusano

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