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O Monstro do Pântano de Alan Moore, alguma coisa a ver com Henri Bergson

Sobre algumas alterações bastante significativas que Alan Moore fez no personagem de Len Wein e Berni Wrightson, e alguma relação com o filósofo francês Henri Bergson.


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Ressalto aqui algumas mudanças que Alan Moore realizou na obra de Len Wein e Berni Wrightson, alterações nas noções que envolvem o universo do personagem e a concepção de seu modo de existência.

Na criação original de Wein e Wrightson, o Monstro do Pântano é resultado de um acidente, coisa comum nas HQs (Hulk, Homem-Aranha...); uma bomba sabota os experimentos de Alec Holland, que pesquisava uma “formula bio-restauradora”. A explosão atira o cientista num pântano junto com os destroços e os compostos da pesquisa. Ele então ressurge como um misto de vegetal e homem. Vejam que a monstruosidade é uma reação causada por agentes externos; é possível ver aí, talvez, elementos de certo evolucionismo, que reza que as mutações dos seres vivos acontecem como reação a agentes externos, como adaptação ao meio. A evolução do ser vivo, nessa concepção um tanto mecanicista (como por exemplo em Herbert Spencer) as transformações no vivo são causadas pelo meio, pela necessidade urgente de adaptar-se aos desafios do ambiente tendo em vista a sobrevivência. O meio determina as mutações do ser vivo. Penso que talvez haja esse elemento como pano de fundo na transformação de Holland em Monstro do Pântano.

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Sendo assim, Holland é tornado monstro; é um homem que perde sua semelhança e identidade com o gênero humano; ele carrega em si a negatividade da monstruosidade, de não ter a forma nem o rosto de homem. Perdida a imagem e semelhança com os homens, ele é portanto um danado, um “monstro”, e do “pântano”, região obscura que inspira terror e asco. Esse primeiro Monstro do Pântano parece carregar essa falta, essa negatividade. Em “Casas Abandonadas” [1], Moore insere uma historia original da dupla de criadores em sua própria história, homenagem que também evidencia a diferença de concepção. Nela aparece um monstro que sofre sua denegação, sua maldição; ele é objeto de repulsa da mulher amada, é asqueroso, fétido, tem formas repugnantes, e vive a melancolia de sua danação à inumanidade. O seu drama: sentir ainda como humano, desejar como humano, tendo perdido a identidade de humano, a semelhança com os outros.

Moore gradualmente vai desmantelar isso. Primeiro, em “Lição de Anatomia” [2] ele se livra da ideia de que o Monstro do Pântano é Alec Holland revestido de pântano – é o inverso! O Monstro do Pântano é o próprio pântano vestido de Holland - o pântano quem se apropriou das memórias de Holland, que de fato morreu na explosão. O personagem é grandemente abalado com essa revelação, perde o chão, mas na última imagem da história, ele ergue os braços pra cima, sorrindo, celebrando a vida no pântano. Ele é feliz em ser o que é!

Depois vai mais longe. Moore traz ao universo do Monstro do Pântano uma dimensão imaterial da realidade, uma esfera virtual denominada simplesmente de “O Verde”. "Real sem atual, ideal sem ser abstrato" como diria Proust. É um feixe imperceptível e germinal da realidade. Essa dimensão virtual contém em si todo o mundo vegetal em potência, o que eles são antes de se atualizarem numa variedade de espécies, antes de se diferenciarem numa multiplicidade de seres. Aqui, Moore ressoa as ideias de um filósofo francês do final do século XIX e início do século XX, Henri Bergson, que pensava a evolução de maneira diferente, livre do mecanicismo de um Herbert Spencer. Para ele a evolução dos seres vivos é antes de tudo criadora, como assim? As mutações nas espécies acontecem não exatamente por reações ao meio ameaçador, uma adaptação mecânica ao ambiente; as transformações dos seres vivos acontecem antes de tudo por criação, os vivos estão sempre se diferenciando de si mesmos, produzindo variações, novas espécies, bifurcações... Bergson pensava a vida impulsionada pela vontade de criar infinitamente, e vislumbrou a existência de um elan ou impulso vital criador interno ao universo, cuja tendência é sempre criar e variar, e seria isso, antes de qualquer adaptação ao meio, que explicaria as mutações e multiplicidade de espécies. O meio ameaçador então é apenas uma oportunidade de expressão desse elan vital interior ao universo. Bergson trouxe ao pensamento a noção de virtual, essa dimensão imperceptível do real, origem de sua perpétua mudança. Logo, mutações não acontecem exatamente por acidente, mas como um desdobramento das virtualidades, de forças que pré-existem. Veja então como Alan Moore parece ressoar tudo isso em sua recriação do Monstro do Pântano. O Monstro do Pântano não foi resultado de um acidente; o acidente só serviu de ensejo pra encarnar um acontecimento maior e mais profundo. Monstro do Pântano é na verdade um "Campeão Elemental", um tipo de avatar, uma encarnação do Verde; ele é uma criação do Verde. O Verde o criou! Não foi o acidente.

bergson.jpg Henri Bergson (1959 - 1941)

Disso procede todo um modo de existência diferente para o personagem. Não mais a tristeza de um humanoide que deseja o rosto humano perdido, uma anomalia amaldiçoada por não ser idêntica ao humano, que sofre o asco por parte da amada. O Monstro do Pântano vai se desvencilhando do gênero humano, e se afirmando como o monstro que é, alegre em sua diferença monstruosa, que não sofre a falta do humano. A ele nada falta! Ao monstro não falta humanidade nem semelhança com os homens!

Há então esse belíssimo romance entre o Monstro e Abby, a Fera e a Bela, sendo que a Fera aqui não se converte à semelhança com a Bela, antes, seduz a Bela ao seu mundo monstruoso, o mundo do Pântano, do Verde. O Monstro atrai a amada a gostar de sua diferença. Não há aqui aquele drama clichê de "as diferenças" impedem a realização amor. Muito pelo contrário, o Monstro pode usufruir com perfeição o amor de Abby, sem sentir-se faltoso em nada. Embora não possua um falo nem mesmo sexo, não há melancolias aqui. O amor está para ser inventado, como diria Rimbaud. O Monstro e Abby vão criar um erotismo singular, próprio deles. Vão inventar uma maneira outra de fazer amor. Nada lhes falta! E Abby o ama exatamente nessa sua diferença:

Você não pede pra eu te fazer comida ou arrumar o pântano ou passar camisas, e eu tenho flores frescas o ano inteiro. Você é justamente o tipo de pessoa que eu imaginava casar quando era pequena” [3]

Com o Monstro, Abby aprende a inumanizar-se e amar as peculiaridades do pântano, os aromas, os sabores, os sons... Como então fazer amor com um pântano personificado? É um acontecimento belíssimo esse! “Tem de ter alguma forma de comunhão” diz o Monstro frente à questão. Então ele tem uma ideia: brota de si um tubérculo. Abby o come, e cai num transe alucinógeno, e passa a ver o mundo com os olhos do Monstro, passa a enxergar coisas invisíveis impossíveis aos olhos humanos normais. Acontece uma fusão, os dois caem num tipo de despersonalização amorosa, em que o pântano inteiro vem fazer parte dessa cópula espiritual.

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Nada falta ao Monstro de Moore, ele é pleno, e alegre por ser um monstro em sua diferença.

1 - Capitulo 7, na encadernação da Saga do Monstro do Pântano, v. 2 Brain Store 2 - Capitulo 2, na encadernação da Saga do Monstro do Pântano, Pixel. 3 - Capitulo 6, na encadernação da Saga do Monstro do Pântano, v. 3. Brain Store


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