piu

Al

Se eu fosse interessante... eu estaria aqui?

O cruzamento George Romero - David Cronnenberg

Uma hipótese. As mudanças nas ciências e na sociedade, e as misturas das figuras geram novas figuras. Seria o zumbi-veloz um cruzamento de Romero e Cronnenberg?


crona.png

Uma hipótese: os filmes de mortos-vivos atuais talvez derivem do cruzamento de duas figuras diferentes: o zumbi e o pestilento raivoso. O zumbi aparece no cinema em O zumbi Branco, 1933 (Victor Halperin), e trata-se de uma variação fictícia de um tema histórico, presente no vodu haitiano. Nesse sistema de crenças há uma espécie de técnica de feitiçaria de produzir zumbis, um morto-vivo. Grosseiramente falando, a técnica consiste em dois estágios: primeiro um pó composto de toxinas é soprado sobre a vítima, que por efeito delas tem as funções orgânicas drasticamente diminuídas a ponto de ser tido como morto. É executado o funeral, e calculadamente, o retiram do sepulcro antes da morte. Segue uma segunda etapa, na qual lhe é adimistrada contínuas doses de outras toxinas, que o deixam num estado delirante. Há divergência sobre o que conserva a vítima nesse estado, apresentam-se duas interpretações: uma que o estado de zumbi é conservado por doses contínuas de toxinas, a fim de tornar a vítima um escravo trabalhador. Outra que é a própria experiência traumática, de morte, sepultamento e ressurreição, maquinada pelos significantes das crenças e rituais vodu, faz a vítima por própria conta internalizar que é um zumbi; não pode ser a contínua administração das toxinas, pois elas matariam a vítima. O zumbi então passa a habitar cemitérios, e exilar-se da coletividade, achando-se morto. Nesse sentido, a técnica de produção de zumbis tem um efeito ambíguo, ao mesmo tempo que condena a um tipo de morte simbólica expressa na ruptura com a sociedade, é também igualmente uma libertação, pois já nenhuma legislação se aplica ao morto-vivo; trata-se de um verdadeiro monstro, um danado.

zumbi branco.jpg

O filme com Bela Lugosi segue mais ou menos a primeira interpretação: um gênio maligno mantem escravizado um grupo de zumbis. Seja como for, não há na figura do zumbi um caráter de pestilência; os zumbis não se propagam por mordidas; nesse filme ainda o suporte dessa personagem são crenças vodus.

Noite dos Mortos Vivos, 1968, de George Romero rompe com essa imagem dos zumbis; frente à guerra do Vietnã, Romero se inspira no romance apocalíptico Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, no qual um homem sobrevive sozinho, cercado de um mundo dominado por vampiros. Em seu filme, Romero substitui os vampiros por mortos-vivos, a partir de então o Fim do Mundo será pano de fundo para essas personagens, consequência direta da aparição do morto-vivo. Vê-se aí que Romero funde duas personagens, o zumbi e o vampiro, integrando ao zumbi uma característica nova, o poder de picar e contaminar. O vampiro, como por exemplo no Nosferatu de Herzog, traz consigo a peste; sua mordida tem um poder de contaminar ausente na figura do zumbi haitiano. Romero absorve em seu morto-vivo o vampiro, dando-lhe esse poder de picar e se multiplicar, de trazer a peste e o apocalipse. Mas aqui a figura do vampiro sofre uma degeneração, pois os mortos-vivos serão lerdos, decompostos, despossuídos de razão, despedaçados. Romero desliga os mortos-vivos da ideia de um controle – é impossível controlá-los, pois não há neles mentalidade, são fome pura, peste, fome, apocalipse. A origem dos mortos-vivos é sempre uma interrogação que amplia o terror. É claro, a pestilência dos mortos-vivos evoca experiências históricas de pandemia mundial, como a gripe espanhola de 1915, junto ao delírio clássico e religioso do fim do mundo.

a noite dos mortos vivos.jpg

Suponho que haja aqui uma bifurcação, dando origem a outra linhagem de personagens: o raivoso, que não necessariamente é um morto-vivo, mas que virá a se cruzar com ele, levemente inspirado nele. Aparece, por exemplo, em Calafrios, 1975, de Cronnenberg. O filme sombreia os filmes de Romero; o lugar fechado penetrado por agentes destrutivos, mas aqui tem um diferencial: há uma descrição do nascimento da pandemia – é um acidente científico! É a técnica científica que produz um descontrole no corpo humano, fazendo-o liberar sua vitalidade selvagem; agora não mais a morte é o terror, mas a própria vida corporal, com seus desejos, sua raiva, sua fúria, seu apetite sexual, sua fome. Em Cronnenberg, mais ou menos revertendo a lógica de Romero, não é a morte no ser vivo que torna ele um monstro, não é a animação do cadáver – mas é o próprio corpo em suas pulsões, quando lhe são removidos os esmaltes civilizatórios e a razão, quando o corpo cospe fora a subjetivação social – nasce a peste! Ou seria a peste a própria subjetivação do civilizado levada ao extremo? O que importa é que agora o terrível é a vida do corpo em sua selvageria. O Terror se mistura com a Ficção científica. Depois vem Rabid, Enraivecida na Fúria do Sexo, de 1977. Esses dois filmes tratam de pandemias e de pestilentos enfurecidos. E repetem a ideia de que o monstro é produzido em laboratório; o corpo humano tem essa maleabilidade passivel de manipulações, de enxertos, alterações. Nos dois filmes há a expressão de uma protomatéria que pode se metamorfosear naquilo com que entra em contato: em Calafrios é o parasita; em Rabid, as células ; e é devido a essa potência vital primitiva de contrair aquilo que toca que tudo sai do controle, algo escapa ao, causando aberrações imprevisíveis que viram pandemia.

calafrios.jpg

cena de Calafrios

Se nos filmes de Romero a ausência de origem faz parte do horror, nos de Cronnemberg a narrativa do nascimento da pandemia é um suspense crescente. Evoca-se todo o horror frente ao poder da Ciência, ou o horror da vida que revida a esse poder, e não se deixa ser controlada por ele; dá-se alusão a teorias da conspiração, de que as pestilências nascem dos laboratorios, programaticamente ou acidentalmente. É uma origem puramente biológica, efeito colateral da ciência - não se trata de um morto-vivo, mas de um corpo histérico, modificado, descontrolado. É possível distinguir duas linhagem de personagem aqui, os mortos-vivos e os raivosos. Mas suponho que essas linhagem tenham se cruzado, gerando o zumbi-raivoso, de origem tecno-científica, que há por exemplo em Resident Evil, 2002, e na refilmagem de Eu Sou a Lenda, em 2007, e no recente Guerra Mundial Z, 2013. Nesse último, a multidão de zumbis parece conquistar um tipo de inteligência ou instinto coletivo, a ponto de conseguir coordenar ações, sentir quando um deles é morto, pressentir um corpo doente e evitar mordê-lo, além de apresentar maior invunerabilidade. Tipificando, os zumbis sairam do ópio para cocaína, da letargia para a superexcitação.

Rabid (1977).jpg

Ao que parece, novas compreensões da vida modificaram a ficção da morte-vida: conforme Romero, apagando-se a centelha do psiquismo, restasse o funcionamento puramente orgânico, carcaça mórbida e lerda, apodrecendo em vida, arrastando-se movimentada pela fome. Isso muda radicalmente no nervosismo hiperativo, veloz, conectivo, em Guerra Mundial Z; os zumbis parecem simular a velocidade dos cabos óticos ou das sinapses e das conexões nervosas. Mudou-se a compreensão da biologia; é como se, colocando entre parêntese o que se chama consciência, entregues ao puro automatismo orgânico, não aparecesse letargia mas o nervosismo; não mais a estupidez absoluta da ausência da consciência, mas um instinto inteligente do próprio corpo, agilidade, conectividade, hiperatividade, agressividade, velocidade – a vida corporal sem consciência é assim exposta; crepúsculo do zumbi de Romero, aurora do zumbi de Cronnenberg. Os zumbis-nervosos entram na supervelocidade dos cabos óticos da contemporaneidade, no hibridismo da vida sendo nivelada à cibernética, modificada por ela, entendida como ela.

guerra mundial z.jpg


Al

Se eu fosse interessante... eu estaria aqui?.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Al