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A desaparição de "Gonna Fly Now" de Rocky IV

A pergunta que dá origem a esse texto é: por que o tema Gonna Fly Now desaparece em Rocky IV?


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No filme Rocky IV, Rocky Balboa (Stallone) enfrenta Drago (Lundgren) boxeador da União Soviética, um verdadeiro monstro vermelho, não-humano. Ao lutar com Apollo, o mata implacavelmente. Drago não tem expressão nem força humana, mas Rocky irá vingar a morte do amigo, lutando com Drago em Moscou.

Algo acontece nesse filme que o diferencia da Trilogia que o antecede, uma característica marcante dos filmes anteriores desaparece; o "Rocky trainning" ao som de Gonna Fly Now de Bil Conti some. Mas porque simplesmente a marca registrada dos filmes Rocky é interditada aqui? É que o filme precisa expressar todo o dualismo em questão: EUA x URSS.

Como se sabe, Rocky é descendente de imigrantes italianos que vieram tentar a vida em solo americano. Morava num bairro pobre da Filadelfia e não era exatamente um bom lutador de Boxe. Foi por acaso envolvido na jogada de marketing planejada pelo campeão de Boxe Apollo Cred; que sendo invencível quis apresentar o espetáculo do “Sonho Americano”, a oportunidade a um lutador suburbano qualquer tomar-lhe o título. Obvio, nos bastidores desse espetáculo há um cálculo bem exato: que se trate de escolher um lutador ruim a fim de que a luta seja mais ou menos um show de calouros televisivo. Nada que atrapalhe o campeão.

O que Apollo não contava é que Rocky tinha uma aptidão que não era exatamente arte ou técnica de Boxe: suportar golpes, ficar ainda de pé. Sempre foi essa a virtude de Balboa e a razão de suas vitórias. Ele é massacrado, mas não cai. Ele aguenta. É por essa capacidade de suportar golpes que Rocky realiza o Sonho Americano, que consegue vencer. Rocky é a personagem cujo evangelho diz: não é preciso ser genial nem ter algum talento, é preciso aguentar, suportar o choque, e continuar de pé. Essa é sua maneira de personificar o Sonho Americano, que por si mesmo não tem rosto nem etnia nem classe social, é totalmente abstrato como convém a uma ideologia liberal. "Todos" podem encarná-lo. Rocky o encarna assim: o homem que treina seu corpo a fim de suportar os golpes e ficar de pé. As cenas emocionantes embaladas por Gonna Fly Now, a corrida e a subida dos “degraus do Rocky” no Museu de Arte da Filadelfia, podem ser vistas como via crucies, ou um treinamento para ela; treinar o corpo a fim de suportar todos os golpes.

Mas voltemos ao filme. É preciso abrir mão do que se constituiu o clichê energético da Trilogia anterior para dar lugar a um clichê mais importante, mais abrangente; o dualismo entre o Sonho Americano encarnado em Rocky, e o Comunismo soviético; clichê republicano dos EUA. Esse dualismo se torna expressivo no filme exatamente por debelar aquele clichê energético que todos esperam, que está para a Trilogia anterior como o vôo do Superman de Christopher Reeve ao som da música de Jonh Wilians. Alguém já definiu o cinema hollywoodiano como “uma boa história com duas ou três cenas de impacto”. Pois bem, a corrida de Rocky emoldurada por Gonna Fly Now é uma dessas cenas. Mas aqui ela não poderia aparecer, pois é preciso colocar Rocky e seu mundo de um lado, e Drago e seu mundo de outro, e fazer-lhe comparações e valorações bem explícitas. É preciso opor o mundo luzivo de Rocky ao negro e vermelho de Drago, escuro como o protetor dental usado por ele.

Rocky treina em alguma gélida aldeia camponesa da Russia, junto a gente simples, trabalhadores. É como se o bairro pobre da Filadelfia estivesse na Russia. Sim, no pai dos países comunista há desigualdades como no pai dos países capitalistas, o filme nos quer mostrar! E Rocky está com essa gente simples, treina executando os mesmos movimentos do trabalho comum da aldeia, carrega pedras e toras, corta lenha, e entre uma corrida e outra ajuda um campones a desatolar sua carroça da neve. Ele está usando materiais improvisados para treinar, ferramentas de trabalho do lugar. Está se acostumando ao clima gélido da Rússia, treinando seu corpo para enfrentar o dragão ciborgue comunista.

O mundo de Drago é finalmente descortinado nessa cena, é um ambiente cibernético que desvela as razões de ele não ser humano. Evoca-se as imagens aterrorizantes da ideologia americana acerca dos comunistas russos. Eles não são homens. São máquinas. São frios. Não têm sentimentos. Por isso são maus. Por isso são assassinos. Por isso Drago matou Apollo. São mais máquinas que homem. Evoca-se então um fantasma ainda mais profundo: o pavor hipócrita ao mundo das máquinas, e ao seu império sobre os homens, que na indústria americana de filmes tem uma larga tradição. (Exterminador do Futuro, Matrix ). Drago aparece aliado a uma tecnologia futurista, expressão da cobiça armamentista da URSS, é como se o boxeador fosse um arma desenvolvida na corrida armamentista no cenário da Guerra Fria. Equipes de cientistas calculam e intensificam a força do corpo do lutador, a fim de torná-lo mais que humano, invencível.

As cenas do mundo de Rocky e do mundo de Drago se alternam para exprimir o contraste; os movimentos corporais de Rocky em seu ambiente rústico se equivalendo aos de Drago em seu ambiente cibernético, o que tornava impossível reproduzir nessa cena Gonna Fly Now, que só caberia emoldurando o treinamento de Rocky. Gonna Fly Now tornaria impossível exprimir a radicalidade do dualismo que se pretende aqui.

Uma das cenas mais inusitadas é Rocky puxando um trenó, de quatro, como um animal de carga, em oposição a Drago, que numa posição similar, executa exercícios calculados por sofisticados aparelhos. Aludiria isso a capacidade de Balboa de suportar golpes? O que o seu treinador repete é “no pain, no pain!” Há outra cena onde Balboa faz movimentos com uma canga de bois sobre o dorso. E finalmente ele levanta os braços de uma carruagem com toda sua equipe dentro.Cola-se sobre o empreendedor do Sonho Americano a imagem do animal de carga, sofredor, mas que aguenta o baque - só assim ele chegará lá, na vitória.

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Estranhamente a barba de Rocky começa a crescer, mas, barba não seria nas imagens estereotipadas um signo dos camaradas comunistas? É que a barba parece coroar tudo que essas imagens nos dizem, que Balboa encarna de maneira mais autêntica do que o monstruoso Drago a simplicidade dos trabalhadores; ele é rústico, simples, está vencendo pelo próprio esforço, e não com anabolizantes e parafernálias tecnocientíficas. Rocky é puro. Está treinando entre camponeses, trabalhando até. Ele sim está com os trabalhadores! E sua vitória será a deles! Ou seja, Rocky como encarnação do Sonho Americano, pobre que triunfa por sua dureza, é talvez mais “comunista” do que Drago, o frio representante oficial da União Soviética. Quando o nanico Rocky estiver no ringue com o calção colorido de cores americanas, sem técnica, alvoroçado, e o gigantesco Drago com o calção vermelho vier esmagá-lo, mas uma vez, por sua força animal de suportar golpes, irá vencer, aguentando até o último round em pé, o ciborgue, o dragão vermelho. Sim, e por todos!

Foi para exprimir esse quadro tosco pedindo emprestado os clichês americanos disseminados na Guerra Fria que esse filme baniu o belo tema Gona Fly Now, que teria sido um tipo de cereja num bolo estragado.


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