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Frank (2014), entre a Arte e o Espetáculo

Pode-se ver o filme Frank (2014) como um diagnóstico das tendências contemporâneas no que diz respeito as metamorfoses que as novas mídias e a internet produziram na vida.


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Pode-se ver esse filme como um diagnóstico das tendências contemporâneas no que diz respeito as metamorfoses provocadas pelas novas mídias.

Apesar do título, convinha que o filme focasse em John (Domhnall Gleeson), verdadeiro protagonista, um medíocre pretendente a músico, que expõe até os minúsculos eventos de seu insignificante cotidiano nas redes sociais. Ele sonha em ser músico. Por acaso, ele ingressa em uma curiosa banda na qual atua o misterioso Frank. Frank é uma espécie de Jim Morrison, um xamã musical, um maestro, coração da banda, capaz de extrair música das contingências mais banais. Mais do que isso, ele leva os membros da banda a um experimentalismo radical, que requer um envolvimento completo com a música até o limite da loucura. A música enquanto produto final, enquanto obra, é menos relevante que a experiência intensa que ela pode produzir: os desregramentos dos sentidos, as reviravoltas existenciais... A música que vale deve sair do caldo desses experimentos.

Frank tem uma singularidade – mantem seu rosto oculto sob uma cabeça artificial, máscara que nunca tira. Nunca ninguém vê o rosto de Frank! Ele carrega consigo um laudo psiquiátrico que lhe autoriza a usar sempre sua cabeça artificial, excentricidade extremamente reverenciada pelos membros da banda, que o consideram o genial propulsor de suas experiências.

Para Frank e sua banda, fazer música é experiência dos limites, e urge uma preparação rigorosa, estranha – é preciso estar realmente pronto para se gravar um disco! Frank os conduz nessa experiência coletiva, cuja temporalidade não obedece a nenhuma lógica externa,e despreza a lógica do mercado fonográfico, e sua pressa em pôr em circulação um novo produto, e um novo espetáculo. Faz parte do criacionismo da banda essa auto-exclusão, essa auto-proscrição, certo menosprezo por ser palatável, por ter um resultado final aplaudido. Parece tudo girar em torno de uma lógica interna muito singular, criar por criar, trabalhar duro e rigorosamente para produzir algo que diz respeito a eles mesmos. Ora, o medíocre pretendente a showman acha tudo isso absurdo, e certamente decorrência dos problemas psiquiátricos de Frank e dos membros da banda – parece que a loucura é um caráter comum entre eles.

John, decepado de seu cotidiano banal e miraculosamente enxertado nesse universo apócrifo, onde é empurrado a experiências insanas, parece conseguir manter-se equilibrado registrando tudo e expondo nas redes sociais, das quais não se desconecta um só minuto. Acalentando sonhos de sucesso, verificando incessantemente o número de acessos em seus vídeos postados e registros diários. O fato é que John já é um showman, ele já participa assiduamente do “show do eu” na internet, onde o show já não pertence a alguns seres supremos e talentosos, mas está democraticamente aberto a todos; qualquer um pode ser o empreendedor do próprio espetáculo, publicando-se na rede. Agora, o sucesso depende menos de talentos para criação do novo, de experiências insanas capazes de liberá-los, efetuá-los, treiná-los do que de um hiperativo trabalho de se expor nas novas mídias e angariar um público visualizador, e alimentar sem cessar esse processo. No lugar de uma lógica artística uma empreendedorística! Não mais a turbulência da sensação mas o turbinamento do sensacional.

John é o antípoda de Frank. Frank é aquele que esconde o rosto. Acha-o desinteressante. Não quer expô-lo sequer a amigos. E no entanto, Frank parece ter uma sensibilidade assombrosa e uma aptidão de tocar fundo quem quer que seja. Tem uma potência de fazer do evento mais ordinário um tema gerador de composição. O que há por trás da máscara de Frank? Uma deformidade? Por que dessa cabeça artificial? Um distúrbio mental? Fato é que essa recusa de mostrar o rosto parece ser parte de sua genialidade. Mais ainda, de uma sanidade superior – de fato ele parece ser o mais são da banda! Parece que os limites de sua cabeça artificial é o que o separa do caos completo, que desertificaria tudo e talvez levasse ao suicídio, como aconteceu a um dos integrantes da banda. Seria essa cabeça artificial que o protege da doença mental, da loucura medicalizada e preserva uma loucura artística criadora? Frank preservou sua singular saúde de artista por meio desse artifício genioso. Mas o perigo, o caos devastador capaz de dissolver sua delicada saúde artística, viria de outro lado, mais sutil, com sapatinhos de lã.

Viria exatamente de seu novo amigo e integrante da banda, John, que consegue contaminá-lo com o vírus do espetáculo, inseminando nele o desejo de ser sensacional, aplaudido, visto, acessado. Ora, John não parou um só segundo de proliferar o espetáculo da banda no palco da internet, que já tinha um maciço público internauta, ao que parece. Por que não fazer sucesso? Por que recusar-se ser aplaudido, idolatrado? Por que não ser agradável? O preço a se pagar é pequeno para tamanho prêmio!

A que preço? Agradar! Adequar-se ao público. Ou seja, reduzir-se um pouco, empobrecer-se um pouco. Reduzir a acidez criadora e singular, nascida de experimentalismos estranhos e convertê-la em sonoridades mais reconhecíveis, mais palatáveis, mais comercializáveis, clichês, hits. Não valia a pena? E foi sob o mal-estar do restante da banda que Frank se encantou com a possibilidade do show, ruptura com um singular mundo criado para adentrar no mundo-de-todo-mundo.

A diferença bombástica da banda precisa ser reduzida e adaptada ao senso comum, ao gosto ordinário – é preciso esse minúsculo sacrifício para obter o cobiçado sucesso! Mas no meio dessa jornada ao sucesso algo de ordem mais profunda intervém, travando a corrida de cavalo em direção ao grande prêmio, pedra no caminho até então desprezada por John - a saúde de Frank. Saúde no sentido de nível de vitalidade. A genialidade de Frank não era mais que o sintoma de sua singular vitalidade. O imperativo de reduzir-se e adaptar-se – imposto pela corrida à fama – de empobrecer-se, de pôr freios econômicos em suas potencias criadoras é como um torniquete estrangulando sua sanidade. Desprezemos a sanidade, a vida, a vitalidade – o show tem que continuar! Frank perde sua aura poderosa, sua atmosfera extraordinária, e torna-se um estúpido. Nem mesmo seu colapso nervoso no palco, induzido pela música idiota assomada aos aplausos, exprimindo toda a incompatibilidade desse cenário insalubre com sua sanidade, faz a ficha cair. Frank está morto, como constata um de seus amigos, membro da falecida banda.

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Não era exatamente fazer música por fazer – para além da cobiça de público e de fama – era fazer música para viver! Rigorosamente, engendrando-se singularmente com ela para manter-se saudável, supremamente saudável, a saúde dos loucos e dos artistas.

O filme Frank (2014) foi inspirado na vida de Chris Sievey, músico e comediante, que nos anos 80 criou a personagem Frank Sidebottom, uma cabeça feita de papel machê depois substituído por fibra de vidro. Nas mãos do diretor Lenny Abrahamson, a cabeça artificial parece ser o signo do Artista, o que o diferencia de um mero empreendedor da fama como John, que não cessa de expor os mínimos traços de seu rosto e de sua vida banal, identificável e assimilável a um público banal, numa cobiça desesperada por ser visto e afamado. Não é só Frank que usa a máscara, mas toda a banda, e todo artista que se preze; é dentro dos limites dessa máscara que se pode criar um mundo singular, infestado de experiências singulares, sons e cores diferentes que nos arranque da vida banal e nos alavanque a uma supervivência, sobretudo.

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