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Sobre Liberdade de Expressão

Enquanto a liberdade de expressão for apenas de direito, ela será sempre associada ao um tipo de ato brusco e espontâneo, às vezes violentando a outrem. Mas se ela for tomada como "estado de graça", alcançado pelo forçoso trabalho de si consigo, é possível que ela seja associada ao trazer ao mundo algo novo.


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Nós, contemporâneos, costumamos nos remeter a duas Verdades para orientar nossas existências: o Direito e a Medicina. Nós, herdeiros de uma época que contesta os ideais universais da Modernidade, ao que parece, não temos conseguido inventar critérios éticos singulares com os quais orientar nossas existências. Onde as verdades desmoronam pela estrondosa velocidade do "tempo real", das mídias digitais e de seus fluxos de informação, restaria apenas essas duas Verdades inabaláveis para avaliar as condutas: o Direito e a Medicina?

Principalmente as condutas consideradas desviantes. Como avaliar um desvio de conduta? Remetendo às sólidas referências do Direito e da Medicina (Psiquiatria). Frente a qualquer comportamento estranho, nossas consciências fecundadas pelas informações oriundas desses dois centros, conseguem extrair deles muito mais um julgamento moralizante do que propriamente uma avaliação. É sempre um colar a etiqueta de criminoso ou de doente mental, um julgamento que estamos prontos a cuspir no que achamos estranho. Fomos adestrados pela interação das mídias digitais para "opinar", "participar". E isso na velocidade da reação imediata, no calor da emoção do contato imediato; e o que formulamos, automaticamente, parece sempre mobilizar a vulgata do Direito e da Medicina, na elaboração de um julgamento sem exame. À essa reação automática e opinativa damos às vezes o nome de "liberdade de expressão", isso, como convém, devidamente salvaguardado pelo Direito. "Temos o direito de cuspir essa opinião!", protestamos.

Ter como baliza da vida o Direito e a Medicina, significa dizer que acreditamos numa certa distancia entre o "Eu" e aqueles limites da legalidade e da normalidade. Eu só serei mau caso eu ultrapasse esses limites. Aquém deles, estou livre para fazer o que quiser. Enquanto eu não ultrapasso os limites da legalidade e da normalidade, posso dispor de minha liberdade privada. Nesse espaço entre a minha individualidade e esses limites, acreditamos exercer nossa "liberdade de expressão". O que pode querer dizer que a minha existência não tem outro critério de avaliação senão os retirados do Direito e da Medicina; sou devedor a eles e a ninguém mais! Ora, se temos apenas esses critérios externos, quer dizer que abrimos mão se ter critérios singulares, regras, meios, se nos produzirmos a nós mesmos. Sendo os critérios da liberdade, apenas aqueles, com que regras poderei esculpir para mim uma vida bela? O suposto espaço entre mim e os limites da legalidade e da normalidade pode ser de fato o espaço da liberdade de expressão, liberdade de autocriação, liberdade para se esculpir a si mesmo segundo dietas singulares, sussurradas de si para si, aquém das leis do Estado, dietas que não querem ser de mais ninguém, mas que fazem de mim uma obra de arte e um estilo! Essa liberdade é uma prática concreta, e não pode ser apenas de direito.

Rigorosamente, a designação liberdade de expressão só convém quando há de fato expressão, ou seja, uma individuação singular, e quando se escapa da generalização das mesmas balizas, vindas do Direito e da Medicina. Não é tão fácil chegar ao ponto da "liberdade de expressão" quando a tomamos como uma fórmula real, concreta e efetiva. Não é fácil chegar ao ponto de expressar-se a si mesmo! Em geral, somos produzidos, somos reflexos dos fluxos de informação que nos perpassam. Somos cuspidores das opiniões circulantes. Não é fácil chegar ao ponto de expressar-se livremente! Há todo um trabalho ético-estético ao fundo de uma prática de liberdade de expressão! Tomarei aqui como ilustração a parte de uma bela entrevista de Bruce Lee. Ainda que ela seja muito específica, se referindo ao treino de Artes Marciais, penso que ela pode servir de paradigma ao que pretendíamos dizer.

Ele fala de como é preciso um enorme treino, um forçoso exercício, para poder, afinal, chegar aquele pico de "expressar-se". Enquanto a liberdade de expressão for apenas de direito, ela será sempre associada ao um tipo de ato brusco e espontâneo, às vezes violentando a outrem. Mas se ela for tomada como "estado de graça", alcançado pelo forçoso trabalho de si consigo, é possível que ela seja associada ao trazer ao mundo algo novo.


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