pluralismos

Ser um e ser tantos. Olhar e explorar nossa própria imensidão.

Carol Abdelmassih

Estilista de formação, curiosa por opção e inquieta por natureza.

Blue Jasmine: o ser humano à flor da pele

Woody Allen é um grande causador de polemicas, isso não há duvidas. A cada novo trabalho surgem debates entre fãs ardorosos e críticos impiedosos. Meu caso é outro: ao assistir um filme de Allen, procuro sempre anular toda a bagagem anterior e curtir o filme como se fosse o primeiro, despida de pré-conceitos. E com Blue Jasmine não foi diferente.


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Cate Blanchette enche a tela com sua beleza a atuação impecáveis. Logo na primeira cena aparece estonteante e altiva em um pseudo-diálogo com a vizinha de cadeira em um avião. Ela fala sem parar sobre diversos pontos de sua vida com (ex)marido Hal, e a ouvinte escuta sem intervir, sem o menor interesse. A trama é simples: Jasmine tem um casamento aparentemente perfeito com Hal,um financista milionário, que a mima constantemente, numa tentativa de “cegar” a esposa para as falhas do matrimonio. Hal é infiel, e Jasmine escolhe ser uma daquelas mulheres que escolhem a postura de “olhar para o outro lado”, como é dito por duas vezes no próprio filme: prefere ignorar as atividades ilegais do marido e manter seu status e seu castelo de cristal. Moram em Nova York.

A família de Jasmine se resume a uma irmã, ambas adotadas, que mora em São Francisco, com uma vida infinitamente mais humilde.Ginger tem uma vida e estilo que nada tem a ver com a irmã glamourosa e milionária, que em determinado ponto da vida passa a ignorá-la por vergonha e conveniência. Hal é preso por sonegações e esquemas financeiros, uma clara alusão ao caso Maddoff, e tem como fim o suicídio na prisão, por enforcamento. Jasmine se vê sozinha, sem o enteado Antonio que vai embora e nunca mais a procura, e sem dinheiro algum.Após um colapso nervoso, vai atrás de sua irmã pedir ajuda e um local para morar, e esta não se nega em ajudar em momento algum. Muda-se para a casa de Ginger, em São Francisco.

Essa não é mais uma história clichê de superação e re-começos; longe disso, uma vez que não há superação alguma. Na minha opinião, é uma história sobre a natureza humana, sobre como a vida nos transforma e as circunstancias são capazes de fazer irracionais e primitivos. O filme é todo construído sobre o contraste da vida atual com a vida rica de casada que Jasmine levava, através da alternância de cenas atuais e flashbacks. É neste ponto que toda a beleza e delicadeza do filme reside. Vemos diante dos nossos olhos a vida da personagem principal desmoronar, seu castelo perfeito de ilusões sucumbir e esmagá-la, sem piedade alguma. A vida é cruel, e é isso que Woody Allen nos diz. Ginger é um personagem que traz em sua figura um sopro de esperança e bondade: contrariando a opinião de seu ex-marido e noivo atual, ela é piedosa e acolhe a irmã ex-rica quando esta precisa, apesar de ter sido desprezada anteriormente. Da vida antiga traz consigo uma aliança de diamantes, um casaqueto Chanel, cinto Hermés e uma Bolsa Birkin que carrega do início ao fim do filme, como se fosse um souvenir, um lembrete de que em algum ponto, ela já foi diferente dos demais.

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Jasmine vai pouco a pouco enlouquecendo,mascarando os sintomas de seu estado mental sobre o efeito de Xanax durante o filme todo, falando sozinha e confundindo passado e presente. Tenta se reinventar.Cria para si uma nova história como decoradora de interiores,engata um romance com um figurão aspirante à político, viúvo, com uma nova mansão e planos para um futuro a dois, sempre mantendo sua verdadeira história escondida. Pouco dura.Novamente o acaso dá um tapa na cara de Jasmine, e a realidade cai como uma bomba em sua frágil vida arquitetada. Abandonada, entra em colapso e enlouquece de vez.

Durante todo o filme (pelo menos no meu caso) , o diretor nos faz acreditar que a mensagem do filme é o clichê da sociedade moderna: uma crítica clara sobre como o ser humano deixa de SER para ser aquilo que TEM. Também é isso. Mas a mensagem vai além.

SPOILER!!! SE VOCE AINDA NÃO VIU O FILME E PRETENDE FAZÊ-LO, PARE DE LER POR AQUI...

Nos últimos cinco minutos do filme temos a grande revelação: quando Hal foi preso, dias antes anunciou à mulher que ia se divorciar pois estava apaixonado por uma au pair adolescente. Durante a cena,Jasmine enlouquece e desencadeia um surto de raiva, o primeiro de tantos longo da história. Vemos a esposa perfeita, de beleza imaculada, quase biônica, perder o fio da meada e a pose.Cega de ódio, denuncia o marido para o governo americano. Pois é,como havia dito, esta não é uma história de re-começos melosos e esperançosos. É uma narrativa de como a natureza humana pode ser truculenta. Como a raiva e a vingança podem ser devastadoras. Jasmine fica cega de ira e ódio, e chega a ignorar seus instintos mais básicos de auto-preservação pelo prazer da vingança.

A verdadeira história do filme fica clara nos últimos diálogos apenas, e a concepção de Jasmine enquanto personagem muda completamente.Antes a entendia como uma mulher fútil que sofre profundamente pela perda de seus bens materiais, mas não; ela é mais do que isso: Jasmine é uma mulher que sofre não só pela matéria, mas por sentimentos genuínos de arrependimento, culpa, e perda. A última cena em que enlouquece por completo, Cate Blanchette brilha: vemos a personagem enlouquecer e constatamos: Jasmine não tem sangue azul da realeza indiferente, e sim vermelho e humano, como todos nós, meros mortais.


Carol Abdelmassih

Estilista de formação, curiosa por opção e inquieta por natureza..
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