poerschke

We were fated to pretend.

Cássio Poerschke

Formado naquilo que não faz, já trabalhou em várias coisas e, hoje, é na noite que tem se encontrado. E na escrita também.

A nossa vida ou we were fated to pretend

Vou sentir saudades das brincadeiras, dos animais e de cavar procurando minhocas. Vou sentir saudades do conforto de minha mãe e do peso do mundo. Vou sentir saudades da minha irmã, do meu pai, do meu cachorro e da minha casa. É, vou sentir saudades da chatice, da liberdade, e do tempo passado sozinho. Mas não há nada que possamos fazer. O amor deve ser esquecido, a vida sempre pode recomeçar [...]. Nos afogaremos no nosso vômito e esse será o fim. Estávamos destinados a fingir.


MGMT, uma banda americana, lançou em um EP, em 2005, a música da qual a frase que intitula este espaço foi tirada. Neste primeiro texto aqui no obvious, não poderia fazer outra coisa além de escrever um pouco sobre o que faz de Time to pretend ser, desde que a conheci, um retrato de como tenho visto que a vida é.

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Nascemos em mundo onde não pedimos para nascer. São depositadas muitas expectativas sobre nós, pela nossa mãe, pai, família, pela sociedade em geral. Crescemos achando que o mundo é nosso e, se já não o é, um dia será. Somos donos dele, ele está a nossos pés. Pensamos que somos os melhores, mesmo os que acham que são os piores: é o mundo que não os reconhece como tal. Mas logo nos deparamos com o fato de que fomos postos em um lugar onde até para viver nele precisamos pagar. Passamos o tempo todo correndo atrás da máquina, tentando não decepcionar os outros, pensando que, assim, não decepcionaremos a nós mesmos.

Uma dia, percebemos que estamos fazendo muitas coisas que não são exatamente a que gostaríamos de estar fazendo. Nos resignamos com o fato de que a vida é assim. Nem tudo são flores. Temos que quebrar as pedras que estão no caminho até chegarmos aonde queremos. Almejamos a vida regrada que nossos pais querem para nós e que desejamos aos nossos filhos. Temos o certo e o errado e nenhum desvio entre eles. A vida está no preto e no branco e fingimos nos adequar completamente a eles. Nossos tons de cinza devem ser evitados.

É isso mesmo que desejamos? Arrumar empregos em escritórios e acordar de manhã para nossa jornada de trabalho? Perceber que todas as modelos que desejávamos ficaram velhas e tiveram filhos? Que tivemos relações baseadas em conceito errados e nos divorciamos? Que estamos sozinhos nos afogando no nosso próprio vômito e que esse é o final?

Em uma outra música, The youth, a banda nos sugere que podemos inundar as ruas com amor, ou luz, ou calor, tanto faz. Isso nós esquecemos de fazer. Passamos nosso tempo correndo atrás do sucesso, fingindo que é aquilo que queremos. Sorrindo para nossa mãe, para a sociedade. Sentindo falta do tempo em que achamos que poderíamos conseguir tudo.

Mas nós estávamos no auge das nossas vidas. Era hora de fingir. We were fated to pretend.


Cássio Poerschke

Formado naquilo que não faz, já trabalhou em várias coisas e, hoje, é na noite que tem se encontrado. E na escrita também..
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