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We were fated to pretend.

Cássio Poerschke

Formado naquilo que não faz, já trabalhou em várias coisas e, hoje, é na noite que tem se encontrado. E na escrita também.

O que é que a Carmen tinha?

Portuguesa de nascimento, brasileira de estilo, fenômeno nos Estados Unidos. Maria do Carmo Miranda da Cunha saiu de uma família humilde e, com seu turbante na cabeça, tornou-se Carmen Miranda, a mulher mais bem paga de Hollywood à sua época. A primeira artista multimídia do Brasil morreu cedo, aos 46 anos, sucumbindo ao sistema hollywoodiano. Mas seu mito vive até hoje.



A carreira curta de Carmen Miranda não foi impedimento para que sua personagem exótica se tornasse um mito e fosse reinventada até hoje. A pequena notável – apelido que ganhou por ter apenas 1,53m – ganhou fama junto com o samba brasileiro e, do Brasil, despontou para o mundo. Seus gestos, sua voz, sua mistura de graça e talento a tornaram um símbolo no qual até Madonna já disse ter se inspirado.

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Apesar de criar e personificar esse estilo brasileiro disseminado por ela no mundo – e de se considerar uma genuína carioca –, Carmen Miranda manteve sempre a sua nacionalidade portuguesa, nunca adquirindo a brasileira ou a americana, país onde viveu por anos. Nasceu no interior de Portugal, na pequena Marco de Canaveses, e veio ainda bebê para o Brasil, onde seu pai havia aberto uma barbearia. Seu nome, Maria do Carmo, já não era usado nem entre a família, onde já era conhecida como Carmen. Começou a trabalhar cedo, mas não se manteve nos empregos, dizem que por cantar demais.

Criada na efervescência cultural da Lapa carioca das décadas de 1910 e 1920, absorveu o que via nas ruas e criou sua personagem caricata e, ao mesmo tempo, forte símbolo do Brasil no mundo. Foi em 1929, conhecendo o compositor Josué de Barros, que iniciou a se apresentar cantando e a gravar discos. Foi com a música Pra você gostar de mim (que passou a ser conhecida como Taí) que Carmen bateu todos os recordes da época. A partir daí, começou a fazer um grande sucesso no Brasil, gravando para R.C.A. Victor e a poderosa gravadora Odeon.

Suas performances eram de uma imensa capacidade de expressão que era como se fosse possível sentir sua presença mesmo a ouvindo em discos ou na rádio. Isso lhe rendeu o primeiro contrato de uma cantora com uma rádio. Assinou com Mayrink Veiga em uma época onde todos recebiam cachê por participação. Tempos depois, trocou a rádio por outra, a Tupi.

Nessa época, começou a fazer filmes e esse multitalento a levou a fazer sucesso não só no Brasil, mas também no Uruguai e na Argentina, onde, em Buenos Aires, realizou sua primeira turnê internacional, em 1933. Anos depois, passou a integrar o elenco do Cassino da Urca. Foi lá que foi vista pelo empresário Lee Shubert que a levou para os Estados Unidos, onde encontrou sua grande fama internacional.

Seus espetáculos teatrais se tornaram cada vez mais famosos nos Estados Unidos a partir do grande sucesso de Streets of Paris, que estrelou em Boston. Cantou para o presidente Roosevelt na Casa Branca e retornou ao Brasil onde surgiu uma polêmica. Carmen Miranda estava americanizada, diziam os críticos. Sua resposta foi uma música, “Disseram que eu voltei americanizada”, uma sátira à crítica.

Carmen encerrou sua temporada no Brasil consagrada pelo público. Já nos Estados Unidos, transferiu-se para Hollywood onde estrelou, no total, 14 filmes e é, até hoje, a única brasileira a ter seus pés e mãos gravados na calçada da fama, em Los Angeles. A pequena notável, com seus tops, saias rodadas, turbantes e sua plataforma, já havia ganhado o mundo. O pagamento veio com muito dinheiro. Foi, em 1946, a mulher mais bem paga de Hollywood. Mas veio, também, de outras formas.

Todo esse sucesso trouxe suas consequências. Teve inúmeros casos amorosos, mas nenhum filho (chegou a sofrer um aborto), reforçando a ideia de estar à frente do seu tempo, mas também a ideia de uma mulher sem tempo para si. Cantou em português para os americanos que não entendiam nada e personificou a ideia da brasileira que a política da boa vizinhança deles queria. Ficou estigmatizada pelo seu sotaque exagerado, mesmo falando inglês muito bem. Fora isso, para dar conta de sua rotina de trabalho desde sua chegada nos Estados Unidos, Carmen fazia uso de medicamentos, tornando-se dependente, embora dissesse que não era. Depois de 14 anos fora do Brasil, retornou e ficou cerca de quatro meses internada no Copacabana Palace para desintoxicação. Ligeiramente recuperada, voltou aos Estados Unidos e à sua rotina de apresentações. Quatro meses depois, morreu do coração sozinha em seu quarto, na sua mansão.

Seu enterro, no Rio de Janeiro, foi o maior da cidade até hoje, o que nos leva a pensar que talvez a nossa portuguesa tenha sido a maior artista brasileira, até nos Estados Unidos. Ela deu forma a música popular brasileira e deu visibilidade e profissionalismo aos artistas daqui. Antes dela, os cassinos só contratavam, para serem atrações principais, os estrangeiros. Fez tudo isso antes dos turbantes e dos rebolados em frente às câmeras americanas. O Brasil, infelizmente, lembra muito mais da Carmen de Hollywood.

A Carmen brasileira ou a Carmen americana caricata eram tão revolucionárias que chegam a ser atuais. Uma mistura, quase over, mas embasada num talento e num mundo de cultura que ela tinha dentro de si. O que Carmen Miranda tinha veio do mundo. E ainda está ecoando por ele.

Cássio Poerschke

Formado naquilo que não faz, já trabalhou em várias coisas e, hoje, é na noite que tem se encontrado. E na escrita também..
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