poetariado novo

A mão de obra das artes

Jr. Bellé

Jr. Bellé é jornalista e poeta

O poeta e o capitalismo

Que força endemoniada seria essa, capaz de transformar um brasileiro racional, esse inconfundível acumulador de juros nos carnês da vida, esse calombado amolador dos créditos da sorte, assim, de repente, veja você, num escritor? Por que, caralhos, alguém são faria uma barbaridade dessas?


O POETA POBRE 1839 Carl Spitzweg.jpg "Poeta Pobre" - Carl Spitz, 1839

Quando Vanessa Barbara, novelista e colunista da Folha, intitulou seu reverberado artigo para o New York Times, “Brazil's Most Pathetic Profession”, publicado em dezembro do ano passado, referia-se, infelizmente, à profissão de escritor. “A menos que seu nome seja Paulo Coelho, escrever é uma ocupação considerada tão útil e rentável quanto coletar ranho de baleia.” E nem pense em fugir para a não-ficção, jornalismo é uma profissão suicida, falo sério. Sério. Antes disso, tenha em mente a frase com que Vanessa arremata o texto: “(...) todo escritor brasileiro é especialista em tristeza.”

Então, que força endemoniada seria essa, capaz de transformar um brasileiro racional, esse inconfundível acumulador de juros nos carnês da vida, esse calombado amolador dos créditos da sorte, assim, de repente, veja você, num escritor? Por que, caralhos, alguém são faria uma barbaridade dessas?

Apesar da aparência desvairada desta transformação, que particularmente reporto como afrodisíaca, de antemão asseguro que estes, os escritores, ainda são afortunados, e assim o são pelo motivo único de que há um consolo que lhes arreganha as entranhas, que os faz virar virar os olhos e juntar as mãos, em agradecimento: ao menos não são poetas. Relegados ao sopé das artes, estão os que se permitiram arrolar pela paudurecência da própria verve, até que estejam intimamente encurralados, até a empalação artística. Até a glória do silêncio. Até o gozo. O esporro. Até o nada.

Lembro de ter lido recentemente um conselho de uma renomada editora do mercado de livros. Peço perdão e culpo minha esfumaçada memória por não rememorar aqui seu nome, tampouco as aspas corretas. Ato-me à ideia. Ela aconselhava os jovens escritores a jamais iniciarem suas carreias pela poesia, se assim o fizessem, estariam para sempre estigmatizados como “poetas”. O mesmo não aconteceria se começassem com uma prosa, seja ela qual for, assim sendo, seriam simplesmente “escritores”. Dos males, o menor.

Mas o que levaria essa mulher a dar um conselho desses? Qual o problema em ser poeta? Encontrei a resposta debaixo do nariz, na lábia de meu próprio editor, Eduardo Lacerda, a desgrenhada barba por trás da editora Patuá. Em entrevista ao Literatura BR, ele contesta a interrogação de Nathan Matos, de que a poesia é pouco lida pelo leitor brasileiro: “(...) a poesia é pouco lida pelos leitores do mundo inteiro. E é pouco lida desde a antiguidade. No livro A arte de amar, de Ovídio, o autor já diz que a poesia não é mais uma honraria, que mesmo Homero, se vier com versos, mas sem presentes, não será bem recebido. Ele já afirma isso então há dois milênios? Sim! As pessoas têm uma tendência ao pessimismo sem conhecimento. Queremos acreditar que nossa época (e todos são assim, em todas as épocas) é decadente, é pior. Talvez para justificar fracassos pessoais.”

Então, fica a pergunta: porque os poetas escrevem? Se trata de uma pergunta tão inédita quanto “de onde viemos” e “para onde vamos”. Grandes versejadores deram suas versões, entre eles, Leminski, que respondeu num verso:

“Escrevo. E pronto.// Escrevo porque preciso // preciso porque estou tonto. // Ninguém tem nada com isso. // Escrevo porque amanhece. // E as estrelas lá no céu // Lembram letras no papel, // quando o poema me anoitece. // A aranha tece teias. // O peixe beija e morde o que vê. // Eu escrevo apenas. // Tem que ter por quê?” //

O bigode era daqueles que não apenas achavam, tinham certeza, de que a poesia não precisava de um porquê. Aliás, foi ele quem disse: “na realidade, não acredito que se possa começar a ser poeta a partir de uma determinada altura. Poeta é daquelas coisas que ou você é ou não é. É como se fosse um erro na sua programação genética.” Leminski fez todo tipo de bico escrito para tirar uns caraminguás, chegou a trabalhar mais de dez anos com publicidade, e por isso mesmo afirmou que foi a prática da poesia que lhe dotou do domínio da palavra.

Geograficamente mais abaixo, mas na mesma latitude dos mestres, Mario Quintana, qual Rilke em espora alegretense, deu alguns sábios conselhos em “Carta a um poeta”, texto que faz parte do livro Caderno H, lançado em 73, mas que compila textos publicados desde 43 em coluna homônima na revista Província de São Pedro, e posteriormente no Correio do Povo. O mais importante deles, se me permite o crivo, é: “Poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz”. Sshhhhiiiiiii. Depois que deixou de trabalhar na farmácia do pai, e desempacotou livros estrangeiros na Livraria Globo, Quintana passou a ganhar a vida escrevendo tudo que desse algum dinheiro, especialmente colunas para O Correio do Povo, antes para O Estado do Rio Grande do Sul e para Revista do Globo.

Mas e quanto àqueles que escrevem hoje, quanto aos meus e aos seus contemporâneos, por que, diabos, eles escrevem? “Quanto à pergunta, estou pensando nela mais profundamente nesses últimos meses. Não tenho uma resposta que me satisfaça, mas tenho acreditado que nos tornamos muito imbecis graças ao sistema econômico que nos escravizou. Só conseguimos pensar em números, mas em relação à Literatura, no geral, não importa isso. O que interessa é a profundidade do mergulho. Como afirma Georges Picard: 'O artista justifica sua vida por meio de sua obra'", foi o que me disse Homero Gomes, professor de literatura e língua portuguesa, e poeta curitibano, que há pouco lançou o lindíssimo Solidão de Caronte.

Paulo César de Carvalho, professor de Gramática no Anglo Vestibulares e, claro, poeta, lançou em dezembro de 2013 seu terceiro livro, Letra Livre, pela Oitava Rima. Ele foi sintético, porém incisivo, o que lhe concedeu o direito de encerrar este texto: “Escrevo para alimentar o espírito: nunca pergunto o que faço com a poesia mas o que ela faz comigo! Escrevo para homenagear o mistério! A poesia é minha forma de oração! Escrevo primeiro para mim, escrevo porque não posso não escrever, escrevo para não morrer!”


Jr. Bellé

Jr. Bellé é jornalista e poeta.
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