poetariado novo

A mão de obra das artes

Jr. Bellé

Jr. Bellé é jornalista e poeta

O vidente marginal da tropicália era um poeta


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Há poetas e há compositores. Há Lemisnki, Vinícuis, Capinam e Ademir Assunção, estes do panteão dos poetas-compositores. Há também Estrela, Mateus Novaes e Reynaldo Bessa, estes ainda estendem o tapete vermelho para Arnaldo Antunes escalar seu alto degrau na escadaria estelar dos compositores-poetas.

E há Torquato Neto.

Advogo, aqui, que a este piauiense que nunca conseguiu afastar-se definitivamente de sua Tristeresina, sozinho, deveria ser atribuída uma categoria, um rol, um marco. Um bastião. Diferente de todos os citados acima, ele jamais lançou um livro, ao menos não enquanto viveu. Ele era, simplesmente, poeta.

Para a poesia de Torquato, as linhas também podiam ser de plástico, nas ranhuras e relevos dos discos, onde ele escrevia em círculos com a voz de Gil, Caetano, Edu Lobo, Gal, Vandré, Jards e etc, etc, etc. Escrevia também nos jornais. Era jornalista, apesar de rapidamente ter desencanado do curso, na Universidade do Brasil. Ainda assim, este sempre foi seu ofício. Trabalhou no Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora, onde publicou a imprescindível Geleia Geral até março de 1972.

A coluna deveria ser editada por Luís Carlos Sá – companheiro de Zé Rodrix e Guarabira -, e editor de Torquato no Correio da Manhã, jornal que estava sendo fechado para o fortalecimento do Última Hora, já que ambos eram parte do mesmo grupo econômico. A operação custaria a cabeça de muitos jornalistas, mas Sá recusou-se a afastar alguns companheiros, tomando a iniciativa de entregar seu próprio pedido de demissão ao chefe de redação, Reinaldo Jardim.

João Rodolfo do Prado assumiria a edição do remodelado, e podado, periódico, destacando, na edição de 19 de agosto de 1971, uma quinta-feira, o primeiro artigo de Torquato para sua Geleia Geral. O título remete ao poema-manifesto escrito por ele e musicado por Gil, que acabou se tornando uma espécie de hino nos idos da fundação da Tropicália:

“Geleia Geral”, originalmente, era parte de um verso de Décio Pignatari, poeta maior que brilhou tanto que fez a argamassa da poesia pelar, até se tornar concretismo, escola de poetas por quem Torquato foi profunda e paulatinamente se enamorando. Numa entrevista a Régis Bonvício, para a reedição ampliada de “Os Últimos Dias de Paupéria”, em 1982, Décio afirma que Torquato era “um poeta da palavra escrita que se converteu à palavra falada, não só a palavra falada idioletal brasileira, mas a palavra falada internacional. (…) Eu prefiro dizer que o Torquato foi o Mário Faustino do Tropicalismo (…).”

Nunca ficou muito claro os motivos do afastamento de Torquato do grupo baiano, de quem foi visceralmente amigo e parceiro. Há quem fale numa paixão mal resolvida com Caetano, sempre veementemente negada por ambos. Dr. Heli, pai de Torquato, contou a Toninho Vaz, biógrafo de seu filho, que em 1979 Caetano o visitou. “O rapaz chorou muito aquele dia”, disse Dr. Heli, que naquela ocasião deu a ele uma certa “rosa pequenina”, colhida ali mesmo, no jardim da casa, em Teresina. Poucas semanas depois, Caetano compôs Cajuína.

O certo é que este afastamento, ao mesmo tempo que deprimiu Torquato, o forçou a aproximar-se de outros compositores, como Roberto Menescal, Nonato Buzar, Carlos Pinto e Luiz Melodia. Mas isto também marcou um leve afastamento da música, e uma aproximação definitiva ao cinema marginal. Ele tinha sérias divergências com o cinema novo, o qual chegou a classificar como “novo cineminha industrial brasileiro”. Mas com os marginais o papo era outro, não apenas acompanhou de perto a feitura e a evolução de algumas produções e afeiçoou-se de diretores e atores, como escrevia sobre o tema no Geleia Geral, e também no piauiense Gramma.

Em “Tropiácalia – A História de uma Revolução Musical” (editora 34), Carlos Calado descreve Torquato como um “ferrenho militante da implantação da contracultura” diante de um contexto ditatorial. Ele explica: “Seu veículo mais efetivo foi a coluna Geleia Geral (….). Provocativo, Torquato comprou várias brigas. Denunciou a máfia dos direitos autorais no país. Desafiou o compositor Ataulfo Alves, que acabou se defendendo com o samba Não Cole em Mim. Enfrentou Glauber Rocha, Cacá Diegues e outros adeptos do Cinema Novo, ao perfilar ao lado do cinema underground de Bressane, Sganzerla e Cardoso.”

Ele foi, inclusive, ator. Cooptado por Zé Celso, atuou na peça “Gracias, Señor”. Zé contou a Toninho Vaz que naquela época Torquato conviveu muito com o Teatro Oficina: “ele estava muito à vontade no palco, embora não estivesse desempenhando um papel de destaque na peça. Lembro de vê-lo circulando pelo Teresão, suando, empenhado em fazer o melhor”. O ápice de sua carreira de ator foi quando protagonizou o “Nosferatu”, de Ivan Cardoso. Chegou a escrever sua própria produção, “Terror da Vermelha”, gravado entre 71 e 72.

Esse diálogo com outras artes, especialmente a música e o cinema, e a rotina das letras, através do jornalismo, elevou a poesia de Torquato a uma significância e abrangência que dispensou, por décadas, o aporte do livro. Ainda assim, ironicamente, sua canonização poética só foi de fato efetivada após a publicação de seus textos e versos. Torquato suicidou-se na madrugada de seu aniversário de 28 anos, em 9 de novembro de 72. Seu primeiro livro póstumo, organizado pelo amigo e também poeta Waly Salomão e pela esposa de Torquato, Ana Maria, intitulado “Os Últimos Dias de Paupéria” (Eldorado, 1973) e lançado menos de um ano após sua morte. O livro incluía inúmeras poesias avulsas, textos da Geleia Geral e a íntegra do diário de Engenho de Dentro, de 1971, quando o poeta ficou voluntariamente internado no Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Rio. Outros poemas seus estiveram no importante “26 Poetas Hoje” (Labor), organizado por Helena Buarque de Hollanda, em 76, e décadas depois, em 97, na antologia “Nothing the Sun Could not Explain” (Sun and Moon Press, Los Angeles).

Para a antologia “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século” (Objetiva, 2001), em que foi incluído, o organizador Ítalo Moriconi, escolheu “Cogito”, profundamente biográfica:

eu sou como eu sou // pronome // pessoal intransferível // do homem que iniciei // na medida do impossível//

eu sou como eu sou // agora // sem grandes segredos dantes // sem novos secretos dentes // nesta hora //

eu sou como eu sou // presente // desferrolhado indecente // feito um pedaço de mim//

eu sou como eu sou // vidente // e vivo tranqüilamente // todas as horas do fim//

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*Edição especial do blog Pandorga

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Jr. Bellé

Jr. Bellé é jornalista e poeta.
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