poética do desassossego

Literatura, filosofia e artes visuais: crítica e contemplação.

Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão.

A grande beleza de A grande beleza

A grande beleza, filme de Paolo Sorrentino, traz à tona discussões relevantes sobre um tema que há séculos ocupa artistas e filósofos.


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De fato, é impossível não associar, em alguma medida, “A grande beleza” a Fellini, principalmente ao “A doce vida”. Aproximação, inclusive, pretendida pelo cineasta Paolo Sorrentino. Demasiada pretensão? Talvez. Contudo, creio que o filme seja mais uma forma de homenagem do que uma releitura barata. Além do que, Fellini é ponto de partida e isso, de modo algum, desmerece a película de 2013. Ao contrário: mostra que quando as diretrizes estão bem postas, o resultado pode ser satisfatório.

A citação a Céline, logo no início, dá a tônica do que será o filme: "Viajar é útil e exercita a imaginação... Aliás, à primeira vista todos podem fazer o mesmo. Basta fechar os olhos. É do outro lado da vida". Paradoxo interessante já que, para contemplarmos a direção de fotografia impecável, que nos coloca face a face com as belezas de Roma, precisamos abrir bem os olhos.

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Eis que é posto o tema central: toda essa beleza é contrastada ao mundo vazio da “alta sociedade” romana, em suas festas regadas a música eletrônica, roupas extravagantes e intelectualidades e bondades artificiais, desde a escritora que agora, para viver, faz roteiros de reality shows, passando pelo vizinho milionário que é preso, chegando ao bispo que é candidato a Papa, mas só fala sobre culinária. É nesse contexto que o protagonista (Jep), escritor que vive da fama de sua única publicação na juventude (rico porque faz entrevistas triviais para sua minúscula editora), percebe que não pode mais perder tempo e cai, então, em lembranças e devaneios.

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Ouvi alguns dizerem que o filme faz uma crítica ao culto à beleza. Acredito que seja justamente o oposto: o filme critica a não contemplação da beleza. Critica esse engodo que é a “grande beleza”. Critica os estereótipos (por exemplo, ao mostrar a pintura feita por uma criança raivosa que é idolatrada artisticamente). Critica a superficialidade da religião, a futilidade da sociedade e os amores descartáveis. Critica, enfim, o que não é belo sem, contudo, cair num maniqueísmo platônico de essência versus aparência.

Outra possível objeção ao filme: o tema é batido. Sim, verdade. Mas talvez seja lícito transpor para o cinema uma fala de Jorge Luis Borges em relação à literatura: existem cinco ou seis grandes temas. A diferença é o “como”, ou seja, a maneira que o escritor trabalha.

Para finalizar: alguns me perguntaram se o filme é chato. A esses, respondi que não se trata de um blockbuster americano.


Matheus Arcaro

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