poética do desassossego

Literatura, filosofia e artes visuais: crítica e contemplação.

Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão.

Charlie Hebdo, Platão e Heráclito

Após o ataque ao jornal francês, definições do que seria o ser humano servem de subsídio para uma discussão sobre ser e devir, duradouro e efêmero, eterno e passageiro.


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Platão nos convenceu de que o homem é qualquer coisa paradigmática que existe num oásis atemporal; uma coisa da qual todos os singulares são derivados. E, apesar de o mundo esfregar nas fuças do velho grego que tal modelo não existe, alguns ainda agem de acordo com essa premissa, mesmo, às vezes, de modo inconsciente.

Após uma catástrofe qualquer (seja o 11 de setembro, seja os ataques ao jornal francês, seja o genocídio na Nigéria) ouço muita gente dizendo que o ser humano é horrível, que o homem é a pior espécie que já apareceu na Terra e por aí vai.

Asserções dessa natureza são platônicas em dois sentidos: primeiro por afirmar a existência do Ser Humano, ou seja, de uma entidade metafísica, de um conceito generalizante. Segundo por estancar, de modo maniqueísta, a existência do bem e do mal; de estabelecer uma tábua de valores universalmente válida que deveria reger ou avaliar o comportamento humano (não se trata, obviamente, da defesa do relativismo, que seria infantil).

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Fato é que se um homem é capaz de matar muitos semelhantes, outro é capaz de muitos amar; se um se expressa na bala, outro o faz com pincéis e acordes. E, mesmo aquele indivíduo específico, que hoje age condenavelmente segundo os valores vigentes, pode, amanhã, mover-se de modo antagônico. Assim, amando o movimento, Heráclito convida Platão para dançar e, ao som de Wagner, sussurra ao ouvido do ateniense que a harmonia universal é feita de tensões, como a do arco e da lira. Que tudo carrega em si o seu oposto. E que a única coisa que não muda é a mudança.

Essa postura do pré-socrático poderia ressoar como resignação a ouvidos pouco treinados. Mas é o contrário: se não há modelo de homem, está no indivíduo concreto a possibilidade de transformação. Basta amar o que não é passível de mudança (amor fati, segundo Nietzsche) e fazer do devir uma tela, pronta a receber as pinceladas mais vibrantes.


Matheus Arcaro

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