poética do desassossego

Literatura, filosofia e artes visuais: crítica e contemplação.

Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão.

Morte

Flertamos o tempo todo com a morte, mas não lhe damos a devida atenção.


A definição de Aristóteles é clássica: o homem é um animal racional. Logo, é o único animal que tem consciência de estar vivo e, forçosamente, é o único que tem consciência da própria morte. Para muitos, esse fardo é demasiadamente pesado.

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A maioria sequer toca no assunto: “falar de coisa ruim, atrai coisa ruim”. No entanto, os noticiários que estas pessoas assistem estão inundados de morte. O tema é recorrentemente tratado, mas não é refletido. Martin Heidegger (1888-1976) faz uma análise profunda e chega à conclusão de que a morte é vislumbrada apenas em seu sentido trivial. Temos medo de morrer e tomamos algumas precauções para retardá-la. Mas eis que emerge o paradoxo: temos a certeza da morte e, no entanto, enxergando-a cotidianamente, vivemos como imortais: trabalhamos feito loucos, corremos para lá e para cá, queremos resolver inúmeros problemas, mas não nos atentamos para nós mesmos. Para o pensador alemão, a única possibilidade de fugirmos dessa superficialidade é através do sentimento de angústia diante da morte. A angústia é algo que altera tão radicalmente o homem que o transforma em existente (diferente de uma pedra, por exemplo). É nessa indeterminação absoluta que o homem singulariza-se. É através da angústia que nos vemos como seres-para-a-morte e, assim, podemos nos assumir como seres finitos. Com isso, é possível transcender da faticidade para a existência autêntica.

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Suponhamos, por força de exercício, que, a partir de agora, não haja mais morte. Como se daria isso? Não envelheceríamos? Chegaríamos a um estágio de crescimento e pararíamos? Para que faríamos algo agora se pudéssemos fazer daqui a oitocentos mil anos? A morte é a mola propulsora da vida. Conceber a vida sem a morte é tão infantil quanto pensar no dia sem a noite (aliás, a calamidade que seria a “ausência” da morte é explorada com maestria pelo escritor José Saramago em “As intermitências da morte”) Odiar a morte não vai exterminá-la ou adiá-la. Então, seria plausível tomarmos como guia a noção nietzschiana de "amor fati": amemos a morte, tanto a nossa, quanto a das pessoas que amamos. Só assim, amando o que é inexorável, podemos desfrutar do "enquanto isso" que é a vida.

Outro exercício hipotético: cogitemos por um instante que Deus não exista. Sem a recompensa da vida eterna, o homem teria motivo para agir bem? A maioria pensa como um dos Irmãos Karamazov de Dostoievski: “Se não há Deus, tudo é permitido”. Daí, muitos pensadores reconhecerem a necessidade de entidades metafísicas, mesmo admitindo que estas sejam criações humanas, úteis apenas à manutenção da ordem moral. Para Immanuel Kant (1724 – 1804), ao contrário, não há necessidade de divindades para o bem agir. A razão seria o único instrumento necessário para isso. Aliás, sequer haveria possibilidade de afirmações ontológicas sobre algo fora do binômio tempo-espaço, como Deus e alma.

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Diante desse debate levanta-se a questão: mas se o fim é certo, temos mais é que aproveitar a vida. Certo, mas o que significa isso? Para parte do senso comum, aproveitar a vida gira em torno de bebida, balada, sexo... Óbvio que estas coisas têm sua importância. O problema é quando a vida se resume a isso. Voltando à primeira frase: o homem é um animal racional. O único. E, não aproveitar esse diferencial que o capacita para refletir e criar é reduzi-lo à sua animalidade.


Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão..
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