poética do desassossego

Literatura, filosofia e artes visuais: crítica e contemplação.

Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão.

Artigo contra o gênero

A análise da linguagem pode ser uma ferramenta valiosa para a desconstrução da heternormatividade.


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Ultimamente tenho refletido muito sobre a naturalização da cultura, sobretudo em relação à sexualidade. E tenho percebido que são poucos os que se dão conta de como a heteronormatividade condiciona a visão de mundo da maioria, mesmo daqueles que se creem desprovidos de preconceito.

É bem verdade que alguns pensadores têm tentado desfazer isso, como é o caso de Judith Butler. Contudo, tal contracorrente está longe de fazer frente aos que defendem que somente as relações sexuais entre pessoas de sexos diferentes são normais e que o binarismo homem/mulher, masculino/feminino seja dado a priori. (Pensemos: o simples fato de eu usar a expressão ‘alguns pensadores’, no masculino, para abranger homens e mulheres já é um sintoma cabal do machismo incrustado na linguagem).

A fixidez dos gêneros está arraigada na cultura de modo tal que parece natural. Todavia, a meu ver, seu pressuposto é metafísico. Por quê? Porque existiria, num mundo paradigmático, o modo correto de se relacionar. Um modo dado a priori por alguma entidade moral.

Talvez essa metafísica seja passível de desconstrução através da análise linguística, como propusera Wittgenstein. E um bom ponto de partida pode ser a comparação das línguas portuguesa e alemã. Peguemos como exemplo as palavras “sol” e “lua”. Sol, em português, é um substantivo masculino e tem suas qualidades atreladas a comportamentos tidos como masculinos (força, luz, energia, centro, poder). Lua é um substantivo feminino e tem suas qualidades atreladas a comportamentos tidos como femininos (delicadeza, beleza, sem luz própria, brilha nas trevas, reflete luz do sol, coadjuvante, periferia). Em alemão, porém, “Sonne” é um substantivo feminino. E “Mond” é um substantivo masculino.

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Lembro-me que, no início do curso de alemão, um dos colegas ficou perplexo: “como assim ‘lousa’ (Schiefer) não é um substantivo feminino?” Sua indignação era alicerçada metafisicamente (embora ele não percebesse), a saber, de que existe o artigo correto para cada substantivo; artigos universalmente válidos.

Nietzsche afirmara certa vez que “não nos desvencilharemos de Deus enquanto acreditarmos na gramática”. Pretensamente, subverto a máxima nietzschiana: é pela linguagem que podemos desconstruir a metafísica preconceituosa. Afinal, se é verdade que é pela linguagem que a metafísica se instaura, é também verdade que é pela linguagem que ela pode ser combatida (como uma vacina que tem em si o vírus enfraquecido).

Sim, porque não há “o” masculino e “o” feminino como entidades transcendentes que balizam o comportamento humano. Tomemos como ilustração “amor” (Liebe) e “respeito” (Hochachtung). São palavras masculinas em português, mas femininas em alemão. E a palavra “gênero” (gramatical) é um substantivo neutro. Talvez, se houvesse o “neutro” em português, pensar fora do binarismo seria uma tarefa mais fácil. De qualquer modo, as sementes estão lançadas. Ou melhor, as foices estão postas para que possamos podar o preconceito.


Matheus Arcaro

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