poética do desassossego

Literatura, filosofia e artes visuais: crítica e contemplação.

Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão.

Breve relato sobre "Relatos Selvagens"

O filme de Damián Szifron é um retrato da parte escura da alma, não menos humana que as demais.


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De fato, como tem sido ressaltado, “Relatos Selvagens” tem algum parentesco com “Um dia de fúria”, sobretudo em relação ao conteúdo. Mas creio que ele vai além ao mostrar que a brutalidade do dia-a-dia pode levar os homens a estados psíquicos e físicos que ultrapassam o que é tido como aceitável socialmente.

O próprio título é elucidativo; uma metonímia do filme. "Relatos", que são estritamente humanos, interseccionados com a selvageria dos instintos, o que há de mais profundo e irracional na alma humana (e que Freud detectou tão bem).

Só à primeira vista, as 6 histórias não têm relação entre si. Sim, porque elas estão conectadas por um fio muito forte: a vingança. Empurradas por fatos banais (como o insulto numa estrada após uma ultrapassagem), por traições ou por memórias doloridas da infância, as personagens chegam ao seu limite, em patamares onde a racionalidade e a civilidade não dão conta de atuar. E aí, nesse ponto, emerge a animalidade (amortecida no homem pela cultura).

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Tenso e intenso, o filme do argentino Damián Szifron é um mosaico da parte do homem que precisa, mas não pode ficar escondida. Pelo menos não o tempo todo. A opressão, a injustiça e o temor uma hora escapam. Ou explodem, como uma panela de pressão com a válvula quebrada. Não por acaso, Aristóteles, em sua Poética, dera tanta importância à catarse: o grego antigo, assistindo aos infortúnios dos heróis na cena teatral, expurgaria os sentimentos que poderiam prejudicar a vida cívica: “A tragédia, suscitando o medo e a compaixão, tem por efeito a purificação das emoções”.

Vale ressaltar que estas impressões só emergem com tanta força devido às tramas bem construídas, às boas interpretações dos atores e à eficiente direção. Destaque também para as ironias finas e o humor ácido que pululam na película aqui e acolá.

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Interessante que apenas a última história traz uma espécie de saída. Nesse ponto lembrei de Schopenhauer, mais precisamente de sua noção de compaixão: se o mundo é permeado pela desgraça (regido por uma Vontade cega e irracional), resta ao homem dissipar sua individualidade e reconhecer que carrasco e vítima não passam da mesma coisa.


Matheus Arcaro

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