poética do desassossego

Literatura, filosofia e artes visuais: crítica e contemplação.

Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão.

Comunismo: sinônimo de ditadura?

A falta de conhecimento faz que com clichês do senso comum se reproduzam sobre o comunismo, um dos mais importantes conceitos da filosofia política da era moderna.


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Tanto sob o ponto de vista conceitual quanto etimológico, é difícil ser contrário ao comunismo. A palavra Comunismo deriva de “comum”, do latim COMMUNIS, ou seja, "de todos, o que não de apenas um indivíduo”. A ideia contida na palavra é que os bens deveriam ser repartidos entre os homens propiciando a possibilidade da igualdade.

Para Marx, no comunismo, não haveria distinção entre trabalho manual e trabalho intelectual. A abundância tecnológica diminuiria o tempo necessário ao trabalho e, assim, o homem poderia dedicar-se a si mesmo. Superando a alienação do trabalho, o homem superaria a própria alienação (política, cultural, artística e jurídica). Seria estabelecida a consciência autêntica das relações sociais, culturais e políticas. E, quando desaparecessem as distinções de classe e toda a produção se concentrasse nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderia seu caráter político e desapareceria o Estado. Seria, enfim, a humanidade emancipada. Se tais preceitos são ou não factíveis, trata-se de outra discussão.

Fato é que algumas pessoas que criticam o Comunismo (colocando-o, inclusive, como sinônimo de ditadura) não leram uma página de Marx. Não sabem sequer a diferença entre Socialismo e Comunismo.

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Colam o rótulo de “comunista” no governo brasileiro, fazendo o mesmo com Cuba, Venezuela e chegam à Coreia do Norte. Como se fossem a mesmíssima coisa. Não conseguem analisar as diversas camadas do poder público, os jogos políticos necessários e contingentes, as nuances de cada sistema econômico. Estas pessoas, provavelmente, estão entorpecidas pelas promessas do Neoliberalismo e pelo mito da meritocracia. A Coréia do Norte é uma ditadura. Venezuela tem fortes traços ditatoriais (mas Chavez foi uma voz dissonante que deu poderes ao povo perante uma elite venezuelana podre). Cuba não é uma democracia, claro. Mas há inúmeros pontos positivos em sua política como, por exemplo, a saúde e a educação. Ignorar isso só pode ser má-fé ou ingenuidade. Quanto ao Brasil: se olharmos as práticas do governo federal, o PT flertou mais com Adam Smith do que com Karl Marx. Por inúmeros motivos, dentre eles: substituição da política (em sua acepção mais profunda) pela economia; fundamentação do seu discurso no crescimento econômico; desenvolvimento pautado no trinômio emprego-renda-consumo; criação de consumidores em vez de cidadãos críticos. Rotular o PT de comunista pela política de distribuição de renda é, no mínimo, questionável. Se o PT tivesse sido comunista, os bancos, por exemplo, não teriam atingido recordes de lucro como ocorreu nos últimos anos.

O ódio ao Comunismo no Brasil, acentuado nesses tempos de “futebolização da política”, tem basicamente duas origens: a primeira está na Guerra Fria, período em que os Estados Unidos, que lideravam o bloco capitalista, tiveram grande influência na cultura brasileira. A segunda está na própria ditadura militar. Um dos grandes inimigos do regime eram os “comunistas”.

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Obviamente, o Socialismo Real, implementado na Rússia a partir de 1917, não cumpriu os preceitos da teoria marxista. Há possíveis explicações para isso. Destaco três: a Rússia teria saltado de uma espécie de Feudalismo direto para o socialismo, não passando pelo capitalismo, o que seria necessário, já que as contradições do capitalismo ensejariam as condições para o socialismo; incompatibilidade entre a teoria de Marx e a prática política; impossibilidade de um socialismo “local”, que seria “engolido” pelo capitalismo vigente.

Para concluir: grande parte dos pensadores de linhagem marxista, do final do século XX e início do XXI, não creem no projeto “messiânico” do próprio Marx, ou seja, de uma revolução proletária que mudaria o modo de produção. Talvez, para estes pensadores, a saída esteja em políticas como as da Finlândia e da Suécia, uma espécie de Capitalismo Social. Mas mesmo com estes exemplos é preciso cautela: afinal, as custas de que exploração tais países conseguem desenvolver suas políticas?


Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão..
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