poética do desassossego

Literatura, filosofia e artes visuais: crítica e contemplação.

Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão.

Os porões do Natal

Apropriado pelo discurso religioso e, sobretudo, pelo capitalismo, o Natal está distante do seu propósito genuíno.


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Aproxima-se o dia tão esperado por muitos. Grita-se aos quatro ventos que é tempo de solidariedade, de fé, de renovação da esperança. E, seguindo este clima, desde novembro lojas e ruas estão saturadas de enfeites e frases de amor.

A grande questão é: para quê? Para que o espírito de fraternidade se espalhe entre os homens? Os que têm alguma razoabilidade desconfiam que todo esse “espírito” é forjado para saciar o bicho-consumidor, a criatura que trabalhou arduamente vários meses para ser recompensada no final do ano. É para este animal desejante que são feitos os anúncios com sorrisos e embrulhos ao redor de um pinheiro; que as empresas colocam frases convidativas abaixo de suas logomarcas e que as redes televisivas põem suas celebridades a cantar, na tentativa de nos convencer que a festa é sua, a festa é nossa, é de quem quiser.

Eu, desde pequeno, desconfiei dos nobres sentimentos natalinos. Por que os meninos pobres da escola nunca ganhavam o que pediam ao Papai Noel? Aí, na pré-adolescência, ouvi uma música que me marcou: Papai Noel Filho da Puta, da banda Garotos Podres. Sim, eles gritavam na rádio que aquele velhinho, na verdade, rejeitava os miseráveis, que ele presenteava os ricos e cuspia nos pobres. Mais tarde aprendi que o gordo de barbas brancas e roupa vermelha, popularizado pela Coca-Cola, é um dos símbolos da coisificação das relações sociais; que ele nada mais é do que o instrumento entre a mercadoria-produto e a mercadoria-sujeito.

Capítulos notáveis dessa tragicomédia são as celebrações familiares. Pessoas que, em grande parte, veem-se raramente durante o ano, reunidas em nome dos laços genéticos, abraçam-se com uma verdade só vista nos reality shows. E mais: embora, supostamente, comemore-se o dia do mais humilde dos homens, são evidentes os pecados capitais: a gula é incitada pela mesa farta; a ira surge com o presente que o irmão ganhou; a cunhada desperta a inveja porque turbinou os seios e o genro fala do carrão (fabricado no ano que sequer começou) que comprou recentemente.

Mas não sejamos pessimistas. Afinal, o Natal é a celebração do natalício do Salvador. Será? Mesmo para os que necessitam de salvação, a história não é muito clara. Segundo alguns historiadores, Jesus não nasceu em 25 de dezembro. Esse dia teria sido adotado pela Igreja Católica para fortalecer o cristianismo, já que coincidia com a festividade romana pagã dedicada ao “nascimento do deus sol”. Poderíamos ainda discutir inúmeros pontos sobre a faceta religiosa do Natal, como por exemplo a construção da divindade de Jesus, mas isso demandaria muitas laudas, o que não compete a este singelo texto.

De qualquer modo, o propósito desta reflexão não é descolorir o Natal. Ao contrário. Quem sabe, suscitando críticas desta natureza, consigamos resgatar o sentido que a própria palavra Natal traz em si: nascimento. O nascimento de uma visão de mundo mais humana.


Matheus Arcaro

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