poética do desassossego

Literatura, filosofia e artes visuais: crítica e contemplação.

Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão.

Socialista, um hipócrita. Será?

Numa consulta rápida à internet, não é difícil encontrar os mais diversos ataques ao comunismo. A grande maioria sem qualquer lastro teórico.


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Já ouvi, inúmeras vezes, que seria incoerente pessoas que defendem o Socialismo/Comunismo desfrutarem dos produtos oriundos do Capitalismo. Há, inclusive, uma página no Facebook que ironiza isso em seu título: Socialista de iPhone.

Nietzsche foi um dos maiores críticos do cristianismo porque conhecia com profundidade as Escrituras, os teólogos e filósofos medievais. O próprio Marx, para criticar o modo de produção capitalista, conhecia muito bem Adam Smith e David Ricardo, para citar apenas dois autores. Mas quem critica o socialismo nas redes sociais sabe do que está falando? Leram de verdade Marx, Bernstein, Lukács, Gramsci, os pensadores de Frankfurt etc.? E, se leram tais pensadores, o fizeram de boa-vontade, desprovidos de preconceito? Estas pessoas sabem que não existe “o” socialismo, mas várias vertentes de pensamento e prática socialistas? Sabem que as propostas socialistas não se resumem ao chamado “socialismo real”, e algumas delas não preconizam a abolição completa da propriedade privada dos meios de produção?

Antes de responder aos exegetas de fim de semana, deixo claro que minha intenção aqui não é escrever um artigo acadêmico, mas um texto “leve”, direcionado ao público geral; uma porta de entrada para o debate.

Para começar, trago uma frase bem conhecida de Marx: “Se a classe operária tudo produz, a ela tudo pertence”. A sentença não é de difícil entendimento e faz-se muito pertinente a quem adere aos pressupostos do filósofo alemão. Ela e seus desdobramentos são um ponto sólido de combate às críticas que relacionam socialismo e hipocrisia. Mas, a partir deste raciocínio, levanto uma objeção e, em seguida, respondo (a ela): “Não é verdade que a classe operária tudo produz. Ela, por acaso, possui o domínio do processo de montagem? Possui as habilidades intelectuais para a fabricação de um iPhone, por exemplo?”

O argumento acima, muito comum aliás, é tão falacioso quanto se eu afirmasse que, necessariamente, quem defende o capitalismo concorda com os abismos sociais no Brasil ou com a fome na África. É bem verdade que, em seus textos fulcrais, Marx utiliza o termo “proletários” aos operários das indústrias. Contudo, ele deixa clara a tendência de proletarização dos outros segmentos sociais. Vejamos o que o pensador escreve no Manifesto Comunista, de 1848: “A burguesia despojou de sua auréola todas as atividades até então reputadas veneráveis e encaradas com piedoso respeito. Do médico, do jurista, do sacerdote, do poeta, do sábio fez seus servidores assalariados”. Vale ressaltar também que teóricos marxistas do século XX afirmaram que todos os envolvidos no processo de fabricação – desde o engenheiro que projetou o iPhone até o faxineiro que limpa a fábrica no final do turno – estão inseridos de modo estrutural no capitalismo (em diferentes graus, evidentemente). Assim sendo, o proletário é quem, para sobreviver, vende sua força de trabalho em troca de um salário. O “capitalista”, aquele que merece este rótulo, é o dono do meio de produção. Atualmente, poderíamos dizer que se trata do 1% de pessoas que detêm metade da renda global. (Mal-entendidos como este podem levar pessoas ingênuas a acreditar que são “livres” simplesmente porque conseguem tomar cerveja com amigos no final de semana ou comprar um tênis de grife a cada semestre).

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Além do mais, tal crítica ao socialismo não considera um ponto fundamental: grande parte dos avanços tecnológicos e científicos "conquistados" pelo capitalismo têm sua origem (total ou parcial) no setor estatal, sobretudo nas pesquisas em universidades públicas. Em termos mais precisos: para muitos entusiastas desse capitalismo genérico defendido nas redes sociais, a tecnologia e o desenvolvimento só seriam possíveis com a total gerência do mercado. Contudo, a maioria da produção científica e tecnológica tem a participação direta ou parcial dos Estados. Obviamente, isso não torna tais produções menos capitalistas, mas é o suficiente para derrubar argumentos pouco sólidos pautados em um liberalismo involuntário e inocente.

Outra frase que ouço com frequência: “o iPhone que eu tenho só existe porque existem concorrentes à altura como a Samsung e a LG”. Qual o equívoco deste argumento? Pensar o comunismo a partir das categorias do capitalismo. Marx é claro ao afirmar que o modo de pensar, sentir e fazer política dos sujeitos está intrinsicamente ligado ao modo de produção no qual eles estão inseridos. Portanto, é no mínimo questionável associar pobreza, inexistência de tecnologia e subdesenvolvimento a um modo de produção não fundado na propriedade privada. Ademais, faz-se legítimo questionar: se a produção se guiasse por questões diferentes das atuais, o Iphone seria tão valorizado?

Theodor Adorno dizia que não existe “o fora” do capitalismo. Todos estamos enredados. E, ao menos no horizonte próximo, não se mostra possível livrar-se dele. Grande parte dos herdeiros do marxismo, sobretudo os alinhados à Escola de Frankfurt, não creem em soluções sociais utópicas. A revolução, proposta por Marx, seria inexequível. Todavia, isso significa que devamos aceitar resignadamente um sistema que transforma tudo em mercadoria?

Para responder, trago uma célebre entrevista concedida em 2011 por Antonio Candido, um dos maiores intelectuais do Brasil. A certa altura, a repórter pergunta se ele é socialista. Sua resposta é emblemática: “Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre [...]. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado [...]. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais [...]. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite”. E uma das frases mais citadas desta entrevista é esta: “O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue”.

Fato é que o comunismo de âmbito teórico jamais preconizou a pobreza. Ao contrário, aponta para a possibilidade de (re)distribuição das riquezas. E, mesmo aceitando a inaplicabilidade integral da proposta marxiana, podemos (como apontou Candido) enfrentar o mundo com “olhos” socialistas. Consumo é diferente de consumismo. Obviamente, temos que consumir (até por uma questão de sobrevivência). Mas a primeira pergunta que tenho me feito: preciso mesmo consumir o que vou consumir? Se a resposta for positiva, faço-me a segunda pergunta: por que, em vez de consumir de empresas multinacionais, não me volto para o pequeno produtor, para a agricultura familiar? E se, no lugar do Mc Donald's, eu comesse na lanchonete do bairro? Se eu comprasse a roupa da pequena loja que tem fabricação própria? Se oferecesse e pegasse carona em grupos destinados a isso? Enfim, há caminhos. Claro que tais atitudes não trarão mudanças estruturais. Mas, às vezes, ficar preso à utopia socialista pode ser tão conservador quanto defender a meritocracia no sistema capitalista.


Matheus Arcaro

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