poética do desassossego

Literatura, filosofia e artes visuais: crítica e contemplação.

Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão.

Nazismo de esquerda: ignorância ou má-fé?

Em tempos de pós-verdade, sobretudo nas redes sociais, vale uma genealogia - mesmo que breve - para observarmos as raízes, o tronco e as folhas do Nazismo à direita.


Adolf-Hitler.jpg

Certa vez, Nelson Rodrigues afirmou que a ignorância é ousada. Nada mais pertinente ao analisarmos as redes sociais de atualmente. Afirmar que o Nazismo é uma ideologia à esquerda do espectro político é de uma abissal falta de conhecimento. Para fins didáticos, dividi minha análise em três tópicos.

Primeiro: as origens do reacionarismo germânico. A partir da filosofia de Hegel, formaram-se dois grupos conhecidos, respectivamente, como “hegelianos de direita” e “hegelianos de esquerda”. Os primeiros, conferindo uma interpretação conservadora à teoria de Hegel, trataram-na com fortes tons nacionalistas. Dentre os pensadores desta linha estão David Friedrich Strauss e Kuno Foster. Posteriormente, Adolf Hitler interpretaria a filosofia de Hegel por este viés. Os hegelianos de esquerda, por sua vez, foram grandes críticos do Estado e da religião. Dentre eles destacam-se Ludwig Feuerbach, Karl Marx e Friedrich Engels.

Segundo: as práticas do Partido Nacional-Socialista. Muitas pessoas acreditam que, por haver “socialismo” no nome, o nazismo é alinhado ao marxismo. Contudo, basta analisarmos o modus operandi do Nazismo para que tal visão caia por terra. Um dos pontos centrais é que Marx jamais preconizou a existência de raças superiores, tampouco o extermínio daqueles vistos como inferiores. Se pegarmos como exemplo a crítica que Nietzsche faz ao marxismo faz-se claro este ponto: para ele, o marxismo carece do mesmo erro do cristianismo, a saber, a tentativa de igualar o não-igual. Ambas as doutrinas recaem no que Nietzsche denominou “moral de rebanho”.

Terceiro: as afirmações de Adolf Hitler. Há gravações de discursos de Hitler em que ele diz categoricamente que os marxistas e comunistas são inimigos da Alemanha e, por isso, devem ser eliminados. Ademais, existe uma obra fulcral que combate qualquer possiblidade de associação entre Nazismo e Comunismo. Esta obra é nada menos que “Mein Kampf” (Minha luta), biografia escrita pelo próprio Hitler. Várias passagens são úteis à nossa exposição. Para não cansar o leitor, destaco três:

“Se o judeu, com o auxílio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana”

“Em um tempo em que os melhores elementos da nação morriam no front, os que ficaram em casa, entregues aos seus trabalhos, deviam ter livrado a nação dessa piolharia comunista”

“Eis a verdadeira essência da doutrina marxista, se é que se pode dar a esse aborto de um cérebro criminoso, a denominação de “doutrina””

Enfim, depois dessa breve exposição é lícito associar o Nazismo à esquerda? Sim, mas não mais por ignorância. Talvez por má-fé.


Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// //Matheus Arcaro