poética do desassossego

Literatura, filosofia e artes visuais: crítica e contemplação.

Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão.

A RAIZ DO CAPITALISMO É A DESIGUALDADE

Pensamentos sem profundidade, bordões do tipo "minha bandeira jamais será vermelha" e correntes de WhatsApp podem solapar um debate mais sério sobre sistemas políticos e econômicos.


No Brasil, tem-se o costume de demonizar o comunismo, desde antes da ditadura militar. Aliás, foi este o "argumento" engendrado socialmente para a sustentação do golpe em 1964. Em tempos atuais, o "perigo vermelho" volta à pauta, empunhado, inclusive, pelo candidato que ostenta o segundo lugar nas pesquisas presidenciais.

Pessoas contrárias ao comunismo, para corroborarem seu ponto de vista, elencam exemplos históricos como a União Soviética e, mais recentemente, Cuba e Venezuela.

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Então, vamos por partes.

Em relação à União Soviética, nos três primeiros anos após a revolução de 1917, houve adesão social e prosperidade. Acontece que, com a morte de Lênin e subida de Stalin ao poder, os anseios populares foram substituídos por um sistema ditatorial. Portanto, sobretudo a partir de 1920, o socialismo/comunismo praticado lá não cumpriu os preceitos da teoria marxista. A Venezuela está passando por uma situação horrenda, é inegável. E isso está intrinsicamente ligado ao governo ditatorial de Nicolas Maduro. Contudo, não se pode ler a situação de modo apressado e superficial. Não entrarei aqui em detalhes, cito apenas a sabotagem constante feita pela comunidade internacional, liderada pelo EUA. Por fim, Cuba: basta compararmos a saúde e a educação cubanas com a brasileira para percebermos que, se por um lado há traços ditatoriais, por outro eles estão infinitamente melhores que nós nestes aspectos.

O que não parece aceitável é afirmar que o comunismo não funciona e oferecer como alternativa o capitalismo. Primeiro porque quando tais pessoas defendem como bem-sucedido o sistema capitalista, apontam como exemplo os Estados Unidos ou países europeus. Bom, a desigualdade social nos EUA é muito grande e tem aumentado nos últimos trinta anos. Para termos uma ideia, em 1980, a parte da riqueza nacional nas mãos de 10% dos contribuintes mais ricos passou de 34% para 47% em 2016. Quantos aos países europeus, também aconteceu um aumento das desigualdades sociais. Vale ressaltar também que, se hoje estes países são desenvolvidos, não foi sem exploração de países africanos e sul-americanos.

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Além do mais, é preciso fazer uma pergunta aos que defendem o capitalismo: por que usar como exemplo Inglaterra, Alemanha e Japão e “esquecer-se” de Congo e República Dominicana, por exemplo?

Fato é que o capitalismo (neoliberalismo e o livre-mercado) é um sistema que produz comida para 9 bilhões de pessoas num contingente de 7 bilhões e que, ainda sim, mais de 800 milhões passam fome; um sistema em que 1% das pessoas mais ricas tem a mesma renda que a metade mais pobre das pessoas do planeta; um sistema em que a natureza é prioritariamente fonte de exploração e, por isso, é dizimada em prol do lucro; um sistema em que o ser humano e as relações sociais são coisificados. Um sistema, enfim, que prioriza a competição em detrimento da cooperação.

Não, amigas e amigos. Conceber o comunismo como um erro não torna lícito aceitar o capitalismo, um sistema impossível de se manter os direitos mais básicos da humanidade.


Matheus Arcaro

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