poética do desassossego

Literatura, filosofia e artes visuais: crítica e contemplação.

Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão.

Pais doutrinadores?

Precisamos elevar o debate sobre educação e, para isso, não podemos cair em soluções simplistas como o Escola sem Partido. Afinal, se for para falar em doutrinação, faz-se necessário discutir essa noção em vários âmbitos sociais, inclusive o familiar.


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Proponho aqui uma reflexão seríssima. E delicada. Recentemente, num vídeo sobre o Escola Sem Partido li o seguinte comentário: "O Estado não tem o direito de doutrinar MEU filho. Só quem tem esse direito sou EU".

A pessoa fez questão de escrever o pronome possessivo em letra maiúscula. Pois bem. Minha questão é: até que ponto os pais têm essa ingerência sobre os filhos? É evidente que os pais são os responsáveis pelos filhos, que criam, que sustentam etc. Mas pergunto como pai: isso me dá o direito de enxergar meu filho como propriedade, como posse? De obrigar meu filho a ir à missa, fazer catequese e crisma? Se eu estivesse envolvido em alguma atividade ilícita, digamos que eu fosse "traficante de pessoas", que esse fosse meu "ganha pão" teria o direito de incutir na mente do meu filho que tal atividade não é tão grave como dizem por aí?

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Dia desses, um colega professor perguntou aos alunos do oitavo ano qual seria a solução para melhorar o Brasil. Uma menina respondeu: "matar os comunistas". Provavelmente, esta é uma visão que ela traz de casa. A pré-adolescente nem sabia o que era Comunismo, mas repetia essa frase feito um papagaio. Ou melhor, feito uma doutrinada!

Geralmente, os pais que defendem o Escola sem Partido "partidarizam" seus filhos, não só na questão da religião, como apontei acima, mas em assuntos bem mais "corriqueiros". O que dizer de expor seu filho a músicas de baixíssimo valor estético, não dando a ele oportunidade de conhecer os grandes nomes da música erudita, por exemplo?

Fato é que a desinformação impera em relação ao que acontece nas escolas e, sobre isso, tem havido uma estratégia calculada, militar, de espalhar o pânico nos pais. Aí, alguns pais que sequer acompanham a vida escolar dos filhos, sentem-se "culpados" e, numa tentativa de recompensa psíquica, clamam para si o bastião da moralidade em relação aos filhos.

Para concluir: os pais que, de fato, são contra a doutrinação, deveriam mostrar aos filhos as múltiplas facetas do mundo: as várias religiões, as várias formas de amor, as várias formas de organização política existentes etc. Se assim não for, a bravata deles não passa de demagogia.


Matheus Arcaro

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