poética do desassossego

Literatura, filosofia e artes visuais: crítica e contemplação.

Matheus Arcaro

Escritor? Artista plástico? Professor de Filosofia e Sociologia? Tudo isso e nada disso. Intersecção, hiatos e expansão.

A flor

Conto pertencente ao livro "Amortalha" (Patuá, 2017)


É inútil pretendermos integrar a morte na vida e conduzirmo-nos de maneira racional em face de uma coisa que não o é: que cada um se vire como possa na confusão de seus sentimentos. (Simone de Beauvoir)

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Metade da boca é uma flor às avessas. São cinco da tarde e há exatos dois dias ela não come. Passa horas no sofá, de barriga para cima, para não encostar a cara na almofada. Acredita que não irá mais, dentro da jaula minúscula, à casa do homem de branco, aquele que nos últimos tempos a espeta com frequência e enfia amarguras por sua goela abaixo. Suspira quando se recorda da fisionomia da dona assim que ela escutou “câncer” saltando da boca do homem. Diluída, chega uma voz que acaricia seus ouvidos, você vai sair desta, Prin! Ela abana o rabo, não por esperança, mas por gratidão aos nove anos de cuidados praticamente maternos.

Numa manhã de sábado, pela primeira vez, Princesa recebeu de Clara uma lasca de alegria. Veio toda machucada. Pelo e osso, a coitadinha. O filho mais novo de Clara a trouxe enrolada numa toalha. Mãe, ela estava com o corpo cheio de formigas, acredita? Peguei numa árvore perto do trabalho. Naquele dia, Clara fez curativos e a levou ao veterinário: higiene, remédios, vacinas. A gata soube depois: cuidar de vidas pertencia às profundezas da velha, mesmo que antes de se aposentar ela cuidasse só de gente. Numa das primeiras confissões, Princesa ouvira que, com os filhos casados e sem mais trabalhar, a mulher fermentava um silêncio áspero acima do estômago. O marido era uma companhia razoável, porém as conversas já iam pálidas há anos. Além do mais, ele dedicava as tardes ao dominó na praça. Vai sim, Luiz. Se a gente não distrai a cabeça, acaba ficando doente. Sem Luiz, Princesa e Clara entregavam-se uma à outra.

A mão enrugada derrama alívio entre os pelos brancos. Pescoço, peito, barriga. Você vai sair desta, Prin. A gata devolve a carícia, um ronronado, sabe que Clara entende sua língua. As duas conversam desde que ela era pequena. Vem, é hora de dormir! E lá ia Princesa para a cama sob o ar condicionado. Cadê o bebê? E Princesa mostrava a barriga, a esperar os dedos entre os pelos longos e brilhantes. Também nas broncas havia diálogo: Clara asseverava que Princesa não comeria mais porque vomitaria, Princesa questionava, miado alto com o rabo em riste. Mas bastava ver aquele rosto transpirando ternura para ela saltitar em torno da velha.

A intervalos cada vez mais dilatados, Princesa deixa cair as pálpebras sobre os olhos cor de mel. Aqueles olhos que aliciaram Clara. Que olhos, em breve, abraçarão a velha? Que pelos herdarão o colo quentinho? Que ouvidos servirão de celeiro para as solidões dela? Pondera que ninguém da sua linhagem pode substituí-la e um líquido escuro escapa pela boca. Castração, Clara? Pois sim! Uma medida necessária pra que Princesa não volte a fugir, homem. Ao ouvir seu nome, a gata esticou as orelhas. Então quer dizer que vamos pagar uma mutilação? Por acaso você gostaria que cortassem seu clitóris? Não é nada disso que fazem! Vão retirar os ovários e o útero, para evitar o cio. É melhor pra ela, inclusive. Evita várias doenças. Princesa saiu em busca do pote de água e, pela primeira vez, desconfiou de Clara. Ela não entendeu aquelas palavras sem carne – castração, ovário, cio – mas o tom de voz da velha fecundou uma pulga atrás de sua orelha. A cirurgia aconteceu uma semana depois que a gata escapou. Foi numa madrugada. Aproveitando-se de uma fresta no telhado, o gato pulou no alpendre. Ele sabia de Princesa, há tempos tentava uma aproximação. Esfregou os pelos negros na parede, fez questão de escancarar os olhos para que o azul das íris penetrasse nos olhos dela. Prazer. Tom, seu servo! Ela baixou o focinho. Me diga uma coisa: você nunca sai? Segundos de hesitação, ela respondeu: sai de onde? A noite, meu bem, foi feita pra nós. As estrelas são nosso teto. A lua, nossa guia. Isso é o que nos faz sentir vivos, entende? Princesa não falava, apenas absorvia as frases e assentia com o rabo. Saiu com Tom pelo buraco da telha. No caminho, cismou que a velha daria por sua falta e que, quando isso acontecesse, não dormiria mais nem deixaria o marido dormir. Porém, foi chegar ao beco, seguindo o rebolado negro do gato, e um abismo abriu-se à sua frente. Até aquele dia, seu mundo era do tamanho da casa de seis cômodos. Por isso, em pouco tempo, apoderara-se do território. Até aquele dia, fora dona do mundo inteiro. Até aquele dia. Pouco tempo ali, o abismo cresceu e pulou para dentro dela. Um abismo imenso, imerso em luzes cintilantes. Um abismo de aromas, sabores e sensações. Um abismo dificílimo de ser abandonado. Mas o estômago e, sobretudo, o coração a carregaram para casa: pouco depois das sete horas, Princesa miou no portão.

Ela se lembra que, naquela manhã, voltou para casa com a certeza de que se lançaria nos abismos da vida sempre que possível. Contudo não saíra novamente. Pensa na castração, mas não sente raiva de Clara. Percebeu, poucos dias depois, que os humanos cometem inúmeros erros, sobretudo quando têm a intenção de acertar. Consegue ler, nos dedos que continuam sobre seus pelos ralos, que a velha gostaria de confortá-la com uma frase de efeito. Mas, se a dor é profunda, palavras são supérfluas, escutou em algum lugar. Pestanas semicerradas, Princesa admira a mulher que limpa as gotas de sangue na almofada e, em seguida, a água que teima em escorrer pelo rosto.

São onze e meia da noite e ela fecha os olhos. Uma espécie de alegria percorre seu corpo. Sabe que sua existência fez jus ao nome que lhe cunharam. Esta gata leva uma vida melhor que muita gente, ouvia o dono dizer com frequência. Feito aqueles desenhos rabiscados no canto do caderno, as imagens em movimento, desde o dia em que ela chegou, emergem em sua imaginação. Após alguns minutos, percebe a mão de Clara no focinho, possivelmente para averiguar se o ar está entrando e saindo. Você vai sair desta, Prin?

Princesa, ao imaginar o próprio semblante naquele momento, põe em xeque seus dotes felinos. Mas a dúvida se dissipa logo que ela rememora os áureos tempos de caça. Quantos pequenos escorpiões a velha não encontrou mortos no canto do banheiro? Quantos presentes ela não deu à dona? Pelo menos duas vezes por semana, Princesa matava uma barata, corria com ela entre os dentes e a deixava de mimo sobre o travesseiro de Clara. Aliás, por vezes, a gata parecia ter genes caninos. Buscava a bolinha jogada pela mulher, esboçava proteção contra possíveis invasores e fazia festa ao regresso dos velhos com carícias nas panturrilhas flácidas, mesmo nas vezes em que o dono a chamava de favelada feliz.

O dia começa a mostrar o rosto quando, por entre as costelas de Princesa, nasce um som abafado. Ela olha para a dona, que olha para aquela flor às avessas. Minutos de silêncio. A gata entrevê Clara balançar a cabeça ao marido, sair da sala e voltar com um objeto a tremer entre os dedos. O objeto que tantas vezes o homem de branco usou para espetá-la. Você vai sair desta, Prin! O líquido amarelado penetra em seu corpo e, aos poucos, ela flutua até descer ao colo de Clara. Não sente medo das formigas gigantes que a espreitam do chão. A voz, os olhos, os braços fartos: a mulher inteira a proteger sua filha. Princesa solta um suspiro tranquilo e fecha os olhos como se fossem de chumbo.


Matheus Arcaro

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