poética prosa

por Manú Sena

Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café

O leitor

"Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante." Clarice Lispector


lector2.jpg

Palavras que habitam o silêncio.

Acho que poucas pessoas no mundo experimentam um dia a adorável sensação que é a de se ter alguém que pelo menos uma vez na vida nos ouça de verdade.Isso porque há na atualidade uma total busca pelo que é rápido e solúvel, e ouvir verdadeiramente,sentar e esperar palavras brotarem dos lábios de outra pessoa é, apesar de louca aventura, quase impensável nos dias urgentes em que vivemos.Esse filme me fez pensar...Como era o meu mundo antes que eu soubesse ler?Como eu olhava as coisas à minha volta antes que soubesse seus nomes?E depois que soube,como lidei com as mudanças que isso me trouxe?

Definitivamente "O leitor" (2009) filme do premiado diretor Shephen Daldry de "As horas"(2002) é o tipo de filme que me toca mais nos silêncios que suscita,do que nas vozes que me fala. A história de uma mulher e seus amantes,personificados na figura do rapaz que lê para ela,e nos livros que começam a permear o seu mundo comum e solitário.O rapaz e as palavras que saíam dele eram os seus amores,e esse sentimento venial pertencia à ela,que entre absorta e inquieta deixava-se escravizar,ou antes,escravizava o rapaz que descobria em contrapartida dois amores:o amor por ela e pelo sexo e o amor por algo dentro de si que ele não conhecia."Não sabia que era bom em algo",ele diz.

lector1.jpg

O resto da trama se desenrola preguiçosamente, e o que nos fica é a singular história de um amor mal costurado,daquelas histórias que mal acabadas,permanecem sempre adiadas,como um daqueles contos que lemos e que acabam na melhor parte,entre uma vírgula e um ponto final que não veio.E a realidade de não saber o que está escrito num papel vira quase nada quando se tem a coragem de ler o outro,de ouvir o outro e de se deixar deleitar pela alegre fusão que há entre uma voz e letras que do papel,uma vez lidas,ganham ares de festa e se tornam músicas, e se tornam confetes,soltas que estão no ar acinzentado de nossas vidas solitárias.

Palavras que quando lidas em voz alta são como pássaros no inverno: Voam para o lugar mais quente e próximo que encontram e que no filme em questão é o coração da mulher, que ávida de emoção,ouve o seu amante,para logo em seguida deitar-se com ele,emudecendo então.Porque era nesse momento,nesse exato momento em suspenso,que as palavras antes ouvidas,iam morar dentro dela,em sementes de sêmen.

                                                       


Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @obvious //Manú Sena