poética prosa

por Manú Sena

Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café

Fotos post mortem: valorização da vida ou negação da morte?

Consideradas por muitos como algo bizarro, as fotografias Post Mortem encerram em si muito mais do que mostram. Trazem à tona o desejo latente de prolongar a vida de quem amamos e de provar, ainda que por pouco tempo, da sensação de ainda estarmos em sua companhia e de podermos vencer a morte.


medo7.jpgEsta criança está tão serena...nem parece estar morta!

Segundo estudiosos do assunto, as fotos Post Mortem, (como assim ficaram conhecidas as fotos artísticas de pessoas falecidas) tiveram sua origem na Inglaterra da Rainha Victoria, quando esta pediu para que fizessem uma foto de um ente querido seu,para que ela guardasse de recordação. Como na época a fotografia era tida como artigo de luxo, logo se espalhou por entre as famílias abastadas esse que para muitos é um estranho hábito. 

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A menina em pé está morta. Incrível não?

Pensar nas fotografias Post Mortem, me faz lembrar de Nietzsche em Gaia Ciência. Livro onde ele começa a esboçar sua ideia de eterno retorno, segundo a qual a vida seria um infinito ciclo de acontecimentos, que estavam fadados a se repetir eternamente. Ou seja, tudo o que acomete a humanidade hoje, já teria acontecido antes e se repetiria indefinidamente. Isso posto, começo a  imaginar como os homens das cavernas lidaram com a morte. Como se deram conta de nossa finitude e o que pensaram a partir de então.Digo isto, porque mesmo tendo se passado tanto tempo, ainda percebo que a morte é algo que foge a nosso controle de entendimento e que até hoje é assunto do qual evitamos falar ou temos por ele o respeito que temos pelas coisas impalpáveis, não porque não as entendamos, mas porque não alcançamos sua profundidade.

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Última lembrança do filho amado? Não, o filho dorme, sua mãe é que não estava mais entre nós...

A realização de uma fotografia Post Mortem encerrava em si um processo delicado. De acordo com o estado do cadáver, podia-se pensar numa situação que sustentaria a foto. Era muito comum termos fotografias onde a pessoa morta estava entre objetos que amava ou entre amigos e claro, na maioria das vezes junto às seus entes queridos. Quando o corpo tinha mais tempo, era necessário utilizar-se de artifícios como suportes ao corpo feitos de madeira e aparatos técnicos que deixavam a pessoa morta com o aspecto mais natural possível, incluindo-se aí o auxílio de maquiagem. Por se tratar de algo incomum a fotografia Post Mortem era mais cara do que as fotos corriqueiras e muitas vezes uma família guardava dinheiro somente para esse fim e esta era a única lembrança que tinham do morto, como na foto abaixo, onde a criança deitada, morta num surto de cólera, tem o sono velado pelos dois irmãos. Percebam que era necessário e deveras importante cercar os mortos de objetos que faziam parte de seu cotidiano e de elementos que, estando vivos, eles gostariam, de lembrar eternamente.

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Confesso que há algo nessas fotografias que me encanta. Há uma certa beleza nelas que não consigo entender, ainda que num primeiro olhar elas tenham me causado assombramento. Acho que, a partir do momento em que passamos a entender a finitude da vida, (ainda que sejamos eternamente insatisfeitos com o tempo que ela dura), começamos a perceber que é justamente o fato dela ser breve que a torna ainda mais mágica. Que possamos viver então nossa vida até o último instante e que os afazeres cotidianos por mais espaço  e tempo que nos tomem, não sejam capazes de tirar dela o que ela tem de mais bonito, esse nosso demorar pelas coisas,esse nosso pensar e refletir sobre o mundo e sobre os motivos que nos trouxeram até aqui, a este planeta chamado terra. Pois como diria Javier Velaza "Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor, nos salve da vida".

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E para entrar no clima, um dos making offs de um filme onde aparece este assunto e que ainda hoje me faz refletir,Os outros(2001), de Alejandro Amenábar:


Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café.
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