
Foto: Bárbara Porto
Ela, vestida de anjo
que caiu do céu, tinha todos os sonhos do mundo naquele coração rosa, e
ele com a farda branca de um marinheiro envolto em mares de festa e bebida,
parecia naufragado em suas dores e mágoas. Trombaram um no outro, assim, como
quem não quer nada, mas logo em seguida se afastaram, em meio à multidão que
cantava e ria e delirava, debaixo daqueles sons todos e daquele turbilhão de
confete, serpentina e suor.
Era um emaranhado só:
gente pequena, gente grande, gente bêbada e gente sã, sem contar aqueles que
não eram nem mais gente e sim um turba de porquinhos cor de rosa, coelhinhas da
playboy, cachorros, gatos, cobras e até um jacaré. Pois é! No Carnaval podia
tudo, pois tudo era permitido. Mas foi só depois que rolou aquela briga entre o
capitão e o palhaço que tinha tomado umas e dado em cima da colombina de
vestido azul, que em meio aos cacos de garrafa e trambolhões ela disse: "Que carnaval mais violento minha gente, esse povo não sabe curtir!" enquanto
ele de longe,a olhava pelo canto dos olhos e via embevecido, como ela ficava
linda quando irritada, levantando a sobrancelha direita e fazendo biquinho.
E foi só aí que ele fez a única coisa que lhe restava fazer, e quando a banda tocou aquela música antiga que falava de amor e repetia no refrão que o bom da vida era ser feliz, ele tomou-a pelo braço e no enlaço festivo a cartada final: “Vem comigo que hoje o dia é nosso, a vontade de te beijar é grande e o mundo é pequeno pro meu desejo” . O que veio depois, foram beijos, abraços e amassos sobre um céu abrasador. E dançaram, festejaram, tomaram banho de champanhe e cobriram-se de serpentinas coloridas.
De tão envolvidos que estavam, nem perceberam o tempo
passar e a noite chegar, trazendo com o seu manto o fim da banda, do carnaval,
das colombinas e curtição.
E sem o carnaval a rua
era só uma rua, os bichos viravam gente comum e até o palhaço não tinha mais
graça, com seu sorriso pintado jazendo pendurado naquele rosto sem cor. A vida
depois do carnaval era só a vida: Comum, real, profundamente palpável e
indelével. E permaneceria assim, até quando o próximo carnaval chegasse e
trouxesse novamente com ele, aquela outra vida, aquela outra realidade, aquela
outra dimensão humana e onírica.
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