poética prosa

por Manú Sena

Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café

Closer: quando estar perto demais não é o bastante

Um homem caminha por uma rua cheia de gente quando se depara com uma mulher de cabelos vermelhos vindo em sua direção.A mulher o vê e sorri e em seguida é atropelada por um carro.E toda esta história não teria acontecido se ambos não estivessem, sob o risco do real.


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Em Sob o risco do real, Jean-Louis Comolli teoriza sobre a diferença existente entre o filme ficcional e o filme documentário. Para o autor, uma das características mais claras no que diz respeito à esta diferença é que enquanto a ficção pode dispor de aparatos que a protejam de imprevistos, (como a troca, se preciso for, de atores,locações ou músicas, durante a feitura de um filme) o documentário por sua vez, está sempre pautado na realidade, ainda que esta esteja sempre em risco, pois, enquanto a ficção vem de um roteiro pré-concebido, a natureza do documentário é justamente a oposta; é na surpresa e na espontaneidade do personagem documentarizado que ela reside.

Apesar de ser um filme ficcional, Closer (2004) de Mike Nichols, relata com bastante destreza a natureza desta realidade a qual não podemos escapar. Ao risco que corremos todos os dias ao sair de casa, o risco de que algo aparentemente sem importância possa ser capaz de mudar as nossas vidas para sempre. Quando as vidas de Anna (Julia Roberts), Dan (Jude Law), Alice /Jane (Natalie Portman) e Larry (Clive Owen) se entrelaçam, somos transportados à uma realidade mutável e fluida, numa atmosfera quase sempre sob tensão, na medida em que a história dos personagens nos é contada de maneira ágil, através de elipses temporais,que funcionam perfeitamente bem para ilustrar como as nossas vidas estão sempre mudando, à despeito de nossa vontade. Brincando o tempo todo com o conceito de verdade, Closer nos faz refletir: até que ponto conseguirmos ser nós mesmos quando estamos diante do amor? Numa sociedade que idolatra a imagem, como nos despirmos de nossas máscaras, como sobreviver sem falsear nossos sentimentos?

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Anna é uma fotógrafa profissional que escolhe fotografar estranhos, numa tentativa de não se apegar às suas histórias, enquanto Dan é um aspirante a escritor, numa busca constante pela sensação de estar apaixonado. Já Alice está sempre chegando ou indo, enquanto Larry, faz de sua profissão uma válvula de escape para uma vida enfadonha e sem brilho. Todos os quatro personagens, cada um a seu tempo, estão sequiosos por amor e atenção e vivem num constante dilema: Que espaço o amor deve ter em suas vidas? Quanto e até quando eles terão que ceder para serem felizes?

Quando Dan conhece Alice eles se apaixonam irremediavelmente. Mas a segurança de ter um amor não é suficiente, e é por isso que ao conhecer Anna, recém divorciada, Dan se sente novamente atraído. É justamente o fato de perceber em Anna, alguém que precisa de cuidados e que ao mesmo tempo parece segura de si e independente, que faz com que ele a corteje, mesmo que num primeiro momento não consiga seu intento. O risco de viver o real entra em sua vida, quando através de uma brincadeira virtual ele conhece Larry e num revés do destino, acabe o aproximando de Anna,com quem ele passa a se relacionar e acaba se casando. No entanto, a sensação de que algo ficou para trás, a ser vivido e sentido, faz com que tanto Anna quanto Dan, não consigam viver seus relacionamentos. A sensação de que a vida poderia ser diferente se tivessem dado vazão a atração que sentiram um pelo outro os fazem se afastar de seus companheiros para enfim tentarem ficar juntos.

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Mas ao final do filme, a pergunta que nos fica é: porque Anna e Dan não conseguem ficar juntos? Porque Anna, ao voltar para Larry, não consegue ser feliz, assim como Dan ao voltar para Alice? Talvez a resposta para estas perguntas resida no fato de que é da natureza do amor não se deixar prender, nem entender. E todo aquele que tentar aprisioná-lo vai perceber que estar perto demais não é o bastante. E assim, as Annas, Alices, Larrys e Dans da vida real continuarão a existir, indefinidamente. 

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Porque sempre haverá alguém tentando ser feliz. Sempre haverá quem tentará em vão, aprisionar sentimentos e pessoas. E estar sob o risco do real é exatamente isso, esse eterno descobrir e redescobrir de nós mesmos, nessa busca diária por alguém que esteja nos vendo do outro lado da rua, por alguém que enfim possa chegar e ficar, neste mundo onde tudo é fruto de laços que podem ser feitos e desfeitos à nossa revelia.

P.S: Que gostoso ouvir a voz de Bebel Gilberto ao fundo,na sequência que mostra a exposição de Anna. ;)


Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café.
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