poética prosa

por Manú Sena

Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café

Quando se começa a crescer

Foi só quando o Pedrinho disse que ela tinha cara de peixe morto que Ariela teve coragem: "Chato!", "Cara de urubú quando voa" e saíra da sala aonde acontecia a festinha para chorar no canto, que precisava se refazer.


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Pedrinho, do alto de seus 3 anos, meio homem, meio anjo, proferira o que para ela se configurava num sacrilégio, visto que ela gostava dele desde os dois anos, que foi quando se cruzaram na fila do pediatra, onde suas mães encontrando súbitas afinidades, se puseram a falar sobre doces e descobriram que no verão matriculariam os filhotes na mesma escola.A festinha rolava solta enquanto Ariela à espreita, via o jeito com que a Sandrinha jogava charme para o Pedrinho, e como este, bobo, ria da cara dela imitando o urso Pascoalino.Ah! se pudesse entender o que se passava no seu coração! Talvez não se sentisse tão vazia, mesmo tendo comido quantos brigadeiros a sua barriga poderia suportar(é que a mãe dela só permitia doces aos domingos).

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Ah! se pudesse entender o que era aquilo tudo, aquela sensação que a tomava aos fins de semana, aquela saudade daquele menino chato que pegava no seu pé mas que também tinha um cheiro bom de roupa lavada...E ficou ali a conjecturar sobre todas essas coisas, essas curiosas coisas da vida, quando o Pedrinho com dois copos de refrigerante chega perto dela e diz: "Ó,pra você!" e ela num sorriso lindo vermelho escarlate, pega o copo, bebe um bocadinho, levanta os olhos e diz: "Tá bom, te pedôo Pedlinho, mas plomete que nom me chama mais de pêxe morto"? "Hum, ah não sei,Aliela você fica chata tem hora!!" "Ah Pedlinhoooo!" "Tá bom, num chamo mais não e você também não me xingue!" "Tá bom!" E saíram os dois de volta para o salão, de mãos dadas e pensamentos soltos que tava na hora de dançar, que a vida era festa, pura e cristalina, antes da primeira desilusão de verdade, do primeiro "não" doído ou suspiro desiludido.A vida para eles por enquanto, era aquilo ali, o brigar e desbrigar, o fazer as pazes e o brincar, verbos que a gente parece esquecer quando começa a crescer.

               Fotos: Grace Robertson

Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café.
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