poética prosa

por Manú Sena

Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café

simples assim

Só gostava de usar vestidos baratos, destes que são conseguidos em lojas simples de esquina, num entremear de pernas femininas ávidas por competição.


LIQUID1.jpg

Perfume então, só tinha um, barato também, comprado em revista feminina. É como se ser simples fosse só o que ela sabia ser. Como se nunca pudesse ter um scarpin marrom ou uma saia plissada, ou até mesmo um perfume Chanel ou uma casa de praia.Sonhava desde pequena em ter um lar, um marido bonachão e filhos saltitantes em redor dela enquanto fazia bolinhos de chuva numa cozinha apertada e cheirando à amor. Simples assim. Porque sabia desde o princípio que de coisas simples se fazia a vida e que não era um colar de jóias ou uma calça Levis legítima que ditariam seu poder de fogo. Mas o mundo, tão difícil ele, achava que as pessoas que mais tinham, mais eram, e era incrível como tudo parecia tão ditado por etiquetas e como aqueles que se diziam seus amigos olhavam-na as vezes com um olhar de pena, como se aquele desapego dela fosse sinônimo de pobreza de alma e ignorância.Ela podia ver por sob suas retinas o quanto parecia estranha às pessoas as vezes e o quanto todas pareciam querer ditar a maneira como ela deveria se vestir, falar, pensar, comer. O que pensar de tudo isto? O que fazer quando sobrevinha a vontade de chorar?

 

mulher-espelho_1.jpg

A moça do cabelo desalinhado e do quarto sempre em polvorosa, queria ser poesia, mesmo quando era prosa. E deixava sempre de lado as convenções e os precipícios e quando se olhava no espelho não via apenas uma, mas mil moças de vestidos baratos a acenarem-lhe como se a sua vida fosse sempre infinda e cheia de mistérios e segredos, cheia de aventuras, e quimeras e ritmos incertos.Logo ela que não passava duma moça de sessão da tarde e pipoca com suco de groselha.Logo ela,eterna adolescente que talvez não tivesse nascido para Champignons ou laquês, para vinhos do Porto ou Paris no verão.Ai, tudo o que ela mais queria era ser sempre gente,era estar sempre viva,era ter sempre a música como seu guia.Ela queria não ligar para os olhares atravessados, para a carne queimada ou para as dietas que lhe tiravam o sono,o que ela queria era ser feliz,ter dinheiro no bolso e amor no coração.Ora, a moça simples era dona dos mais nobres sentimentos, estes, brilhantes, ricos, ouro em pó, porque a moça descobria cotidianamente, a riqueza que era estar viva e a sabedoria do morrer a cada dia, na certeza de que não adiantava se apegar à coisas materiais,carro do ano ou viagem pra Marte, porque no fundo a vida, exigia apenas coragem. E esta, ela tinha de sobra. 

Simples assim.


Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @destaque, @obvious //Manú Sena