poética prosa

por Manú Sena

Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café

Clube da luta diária

Somos os loucos. Os desajustados que, presos ao mundo cheio de regras por serem cumpridas, nos deixamos aderir aos nossos sentimentos mais vãos.


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Diretamente da obra de Chuck Palahniuk adaptada para o cinema,o filme O Clube da Luta traz ao centro da discussão quem somos quando não estamos. Quem somos quando ninguém está olhando, sem platéia, sem palmas ou audição atenta?Acho que driblar o fato de sermos humanos é a maior guerra que temos que enfrentar com o mundo e com nós mesmos. A humanidade que há em nós está sendo posta à prova ao longo dos anos. Não nos reconhecemos mais, não nos despimos mais. Tudo parece um grande baile de máscaras para o qual somos convidados cotidianamente e onde temos que estar com nossa melhor roupa e melhor versão de nós mesmos. Mas, quem somos? No que pensamos quando anoitece? Como sustentar por muito tempo ser quem não somos? como entender o ciclo contínuo do viver e morrer em um mundo onde a importância está sempre do lado de quem tem dinheiro e poder?

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Essa é a maior premissa desse filme estadunidense de David Fincher. Nele, temos um personagem sem nome, que poderia ser qualquer um de nós, que possui uma vida que não o satisfaz, levando um cotidiano solitário numa empresa onde ele é técnico da seção de recall de carros. Numa dessas muitas viagens ele conhece Tyler Durden, um vendedor de sabão enigmático, que, juntamente com a ácida e evolvente Marla, mudaria sua vida para sempre.Mas não quero falar aqui da história do filme em si, mas sim do seu cerne, do seu mote principal, que é até onde podemos chegar quando deixamos os nossos instintos mais escondidos nos dominarem. Como retroceder depois que o gatilho foi apertado?

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O clube da luta existiu de uma necessidade que os personagens tinham de se sentirem vivos. E a cada soco e pontapé, a cada saliva e sangue derramados estávamos diante dessa nossa necessidade incontestável de sermos melhores do que os outros. Porque não queremos apenas que a nossa grama seja maior que a do vizinho. Queremos que a grama seja maior e mais verde.Queremos ser visivelmente mais atraentes e sedutores, queremos o que o outro possui, numa tentativa mórbida de sorvê-lo como a um canibal. Queremos comer o outro, queremos degustá-lo lentamente e cuspir seus defeitos enquanto lambemos seus ossos, ficando apenas com suas qualidades.Queremos o desprezível, porque o desprezível é a liberdade de sermos quem somos. Queremos essa liberdade.

Queremos o escatológico, porque nossas estranhas são imundas, assim como imundo é o olhar de quem está no fundo de um poço sem fim cheio de lama e caos, de quem não consegue ver a vida como ela é: Dura e implacável. Toda vez que ousarmos achar que a vida é feita de sonhos cor de rosa e de amores encantadores, cairemos. Porque a vida é feita de dor e desprezo e para poucos resta a parcela azul, o bilhete premiado de se poder ser quem deseja ser e não quem o mundo permita que sejamos.O clube da luta é um filme sobre nossas verdades atrás da porta, sobre nossas vontades que estão embaixo do tapete e acima de tudo sobre quem somos no espelho quando as máscaras caem. Quem bebe a taça de vinho ofertada? Quem tem coragem de se jogar no precipício da vida? Quem assume o controle do carro desgovernado?

Quem?


Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café.
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