poética prosa

por Manú Sena

Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café

Do lado de cá: reflexões de uma garota com Asperger

De dentro de nosso mundo a gente vê o outro: o de lá.


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Desde bem criança eu sabia que havia alguma coisa diferente comigo. Eu chorava demais, sorria demais,me aborrecia demais. Tudo me era grande e intenso e decerto tudo me era fluido porque eu nunca conseguia me demorar em ninguém a não ser se esse alguém fosse bem próximo a mim ou me despertasse um genuíno interesse. No dia que descobri que podia me esconder por entre as saias da minha mãe usei desse artifício por muito tempo e com o passar dos anos a vontade de se esconder foi dando lugar ao conceito de que eu era apenas uma garota tímida e eu me acostumei com isso.Todos na família se acostumaram.

Transtorno neurobiológico enquadrado dentro da categoria de transtornos globais do desenvolvimento, a Síndrome de Asperger foi considerada, por muitos anos, uma condição distinta, porém próxima e bastante relacionada ao autismo.Com o tempo foi incorporada a um novo termo médico e englobador, chamado de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e tem como sintomas mais comuns: problemas com habilidades sociais, dificuldade para interagir com outras pessoas e muitas vezes comportar-se de forma estranha em situações sociais, comportamentos excêntricos ou repetitivos, práticas e rituais incomuns, dificuldades de comunicação,problemas de coordenação, entre outros.

Há uma angústia muito grande em ser assim. No início parece fácil ser diferente, porquê posso dizer com toda a calma do mundo: As pessoas não imaginam o quanto podem ser enfadonhas e repetitivas. Há no mundo lá fora uma ânsia vil por viver, essa sede de competição que não cessa, essa vontade gritante de buscar um caminho e uma direção. E muitas vezes não se percebe o quanto se deixa para trás, o quanto se perde no meio do caminho. É claro que eu sempre fiz parte desse mundo, mas sempre tendo o cuidado de manter a devida distância de tudo o que me incomodava,e muitas vezes eram as pessoas que me incomodavam e eu não queria estar com elas, por mais que não entendesse o porquê.

Há um cansaço muito grande na alma do aspie. É como se estar em sociedade e ter que seguir certos padrões sugasse toda a nossa energia fazendo com que muitas vezes nos isolemos depois de um longo período de interação social.O contato visual é difícil, o toque tanto de pessoas próximas quanto distantes é algo complicado.Não é que que não gostemos do toque, ele só é uma espécie de invasão no nosso mundo particular. Contudo, há maneiras de aliviar os sintomas. Fazer algo que se gosta é uma delas.Treinar situações íntimas antes que elas aconteçam, também.Sair com amigos, ler um bom livro, ouvir música, conversar. Aspies costumam ser ótimos ouvintes e ótimos amigos, desde que se consiga respeitar os seus limites. E ao contrário do que muita gente pensa,temos necessidades de interagir como todo mundo, apenas pode não ser com a mesma intensidade com que os neurotípicos interagem.

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No fundo, sentimos necessidade de sermos vistos e entendidos como qualquer pessoa. Queremos amor também e temos muito para dar.Mesmo sabendo que nos dias de hoje é muito difícil que alguém tenha paciência de olhar o outro com olhos de permanência, de escutar o outro com ouvidos sinceros. O mundo é vasto e há lugar para todos. E todo mundo é diferente de alguma maneira. Então que tal se demorar em alguém? Colocar os olhos num mundo que não seja o seu, para variar?Você pode se surpreender dentro do olhar de um aspie.


Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café.
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