poética prosa

por Manú Sena

Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café

Queria sorrir mas não conseguia

Era como se no fundo faltasse alguma coisa e o seu rosto todo se contorcesse ao perceber um provável sorriso.


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Perdera os dentes cedo,aos dezenove anos,e foi como se o mundo tivesse encolhido e lhe dito: "Sorrir é para poucos".Desde então sua vida era um emaranhado de recorrentes anarquias.Quando o peito doía e lhe enchia de água os olhos, ela postava a dentadura no copo e se deixava estar sem sorriso.Quando o dia lá fora estava belo e encantador ela se permitia sorrir e punha na boca aquele sorriso artificial,mas não menos verdadeiro.

E assim,entre "colocar" ou não o sorriso, ela ia escolhendo os momentos que mereciam seu riso ou escárnio, assim, como quem escolhe que roupa vestir de um armário já tão embotado que não oferece mais nada de novo. Sair de casa para o trabalho era difícil deveras. Enfrentar aqueles rostos pela manhã a lhe indagarem o porquê de nunca sorrir era um martírio. Era pôr os pés pra fora e todos diziam :"Lá vai a moça sem sorriso!", "Dizem que perdeu um noivo estrangeiro" ,"Dizem que partiu a boca em duas partes", "Dizem que foi molestada pelo pai"...E todos tinham sua opinião e conjecturavam satisfeitos, que não havia coisa mais gratificante que opinar e discutir a vida da moça que nunca sorria.

E a moça seguia sua vida assim, colocando e tirando o sorriso sempre que achava valer a pena, entristecendo-se com a vida de poucos dentes e muitos problemas.Com a vida de muitas pessoas e nenhum amor para lhe aquecer o coração.E assim como lhe faltavam os dentes,foi-se-lhe faltando a vida e o tempo passou e correu, e com os filhos dos outros brincou e jogou, sem nunca ter tido os seus, sem nunca ter parido ou gemido de dor ou prazer.Até que se fossem todos para as terras do nunca mais: Seus pais, vizinhos, irmãos e primos. Até que a moça fosse, já bem velhinha, morar num asilo de velhos, que velho é feito para ser jogado em um, disseram os sobrinho-netos.

Nos primeiros dias deixou-se ficar absorta.Nunca tinha visto tantas pessoas juntas num só lugar.E se elas soubessem do seu não sorriso? O que diriam? Como estar digna em meio àquelas pessoas que havia acabado de conhecer se não conseguia ao menos sorrir?Foi quando num dia de domingo deu-se o milagre.Sentada na praça interna do asilo, viu um homem se aproximar.Vestia casaco marrom, e tinha no ombro broches de um tempo que passou, medalhas de um tempo em que foi marinheiro, homem do mar."O que será que ele quer comigo?", pensou.Mas ele ao cercar-se dela, nada falou.Abaixou-se,pegou uma rosa vermelha e lhe deu, ao passo, que passava a mão nos seus cabelos e acariciava-os, como se já a conhecesse desde muito tempo.

E ela que de tão surpresa,por ser a primeira vez que ganhava uma flor,sorriu, e nem se lembrou desta vez de verificar se tinha colocado o sorriso ou não.Não tinha.E ele percebeu que não."E agora, como voltar atrás e colocar o sorriso,já que estou tão feliz?" Ele como se percebesse sua angústia sorriu também.E querem saber se ele também tinha dentes? não tinha. E foi assim, que ela percebeu,pela primeira vez na vida que não eram os dentes que a ajudavam a estar feliz ou triste.Que felicidade era uma coisa que vinha de dentro e que uma vez sentida, despia-a de toda e qualquer vergonha ou pudor.Ser feliz de verdade, era isso então.Sorrir mesmo sem dentes,sorrir mesmo com chuva ou tempestade.E se permitiu então descobrir o amor aos 70 anos.

E conseguiu enfim perceber que são mesmo as coisas simples da vida que mais nos fazem felizes e que ter dentes ou não, não mais importava.Pra que dentes se ela tinha agora o amor?Se ela podia comer com os olhos o que nunca degustou e lamber com a língua o que nunca tocou?Querem saber por onde anda a moça/senhora triste? Vive a sorrir seu sorriso sem dentes por aí,pois sabe que a vida não é só espinho e que ela por fim,descobriu a grande verdade:Que sorrir ou entristecer depende da gente.São escolhas diárias que fazemos.E a escolha dela ela fez.E nunca mais deixou de sorrir novamente.


Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café.
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