poética prosa

por Manú Sena

Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café

Fazendo arte com os pés: o passinho carioca e a antropofagia do ritmo

Quando os pés começam a se mexer num balé ritmado, os olhos da plateia se exaltam e somos hipnotizados. O passinho mostra que muito mais que um estilo de dança, é um estilo de vida.


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O ano era 2001, e uma nova maneira de dançar surgia nas favelas cariocas: O passinho. Numa ação que se centralizava mais na dança em si do que na música que tocava ao fundo, os meninos das favelas cariocas inventavam, acima de tudo, uma maneira de ficarem longe de confusões e perigos comuns aos que vivem à margem de uma sociedade cheia de problemas e preconceitos. O passinho surgia, assim, de maneira despretensiosa para se tornar, na atualidade, um modo concreto de expressão cultural que envolve meninos, meninas, homens e mulheres numa indústria que cresce a cada dia. Mas, o que vem a ser o passinho? O que vai além das coreografias criadas pelos antropófagos do ritmo?

De acordo com depoimentos dos próprios precursores do passinho, tudo começou com a publicação de um vídeo no youtube em 2008, que viralizou. O nome do vídeo era "Passinho Foda" e mostrava alguns garotos fazendo coreografias. Em pouco tempo meninos de diversas favelas começaram a replicar a ideia e aquilo que era algo mais centralizado numa comunidade específica começou a ser visto em muitas outras e os bailes de funk abriram espaço para o que ficou conhecido como "batalhas do passinho" onde os meninos se enfrentavam com suas coreografias, ao passo que iam se aprimorando cada vez mais:

A partir das batalhas tudo tomou corpo, o ritmo se tornou ainda mais frenético e a antropofagia se deu, na medida em que uns iam copiando os passos de outros e criando em cima novas maneiras de dançar.

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O balanço sincopado das músicas que possuem fortes batidas, impulsionam os dançarinos a demonstrar uma mistura de funk, soul, dança de rua, frevo e hip hop. Tudo é permitido nesse caldeirão cultural, pois tudo o que mais conta é a alegria de dançar de maneira livre e sensual.Um ponto alto de toda essa manifestação do ritmo, foi o lançamento em 2013, do documentário "A batalha do passinho" do cineasta carioca Emílio Domingos. No documentário, o diretor faz um panorama de como surgiu o movimento, mostra alguns dançarinos que se tornariam grandes nomes e homenageia o dançarino Gambá, assassinado em 2013:

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Na atualidade um dos grupos de maior destaque nacional é o "Dream Team do Passinho", composto por cinco integrantes que já conseguiram levar o nome do passinho para vários lugares do mundo, conseguindo patrocínios importantes, como o com a empresa Coca Cola,quando lançaram um vídeo que foi divulgado durante os intervalos da copa do mundo de futebol de 2014:

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Além de um ritmo de dança, o passinho é acima de tudo um estilo de vida, na medida em que impulsiona jovens de periferia a lutarem por seus sonhos e fazer da cultura da dança um meio de subsistência e resistência. Os moleques são sinistros, são rápidos no gatilho e ao mesmo tempo são doces, com seus pés que riscam o salão levando alegria e vivacidade para a plateia, que absorta bate palmas não somente para eles, mas para a cultura brasileira, tão cheia de graça e vida.

Imagens: Divulgação filme "A batalha do passinho", Google.


Manú Sena

Cineasta em formação, é formada em Letras e professora de Literatura e artes.Gêmeos com ascendente em escorpião, vive num mundo particular feito de gatos, filmes,livros,músicas e um bom café.
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