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Javi

A Amazônia febril de Werner Herzog

Longe dos estereótipos de paraíso tropical, a ótica sonhadora e desencantada de Werner Herzog revela uma Amazônia monstruosa. Um lugar para encontrar o Sublime.


Ao longo de quatro décadas, Werner Herzog (Munique, 1942) consolidou a fama de cineasta viajante e contra a corrente, ao melhor estilo romântico. Estas convicções lhe conduziram a gravar em diferentes ambientes adversos, incluindo a Amazônia peruana.

Imagen Thumbnail para Klaus Kinski dá vida ao impetuoso Fitzgerrald em Fiztcarraldo (1982). © Divulgação.

Fitzcarraldo (1982) conta a epopeia de Fitzgerrald, uma excêntrica personagem histórica amante da ópera, cujos desejos são os de transportar um barco desde um afluente do rio Amazonas ao outro, por terra firme. Como o diretor costuma dispensar efeitos especiais, a única forma de rodar o filme foi, de fato, encarnar os desvarios do protagonista. Em outras palavras, mestre e criatura se confundem neste estudo fílmico sobre a obsessão humana.

Porém, “Contra a selva, os poderes do Céu são impotentes” - sentencia o alemão. A floresta cobra força como um bioma monstruoso, indomesticável, alheio à razão dos homens, logo, dos sensos de justiça, equilíbrio e harmonia.

Surpreendem-lhe os anzóis do tamanho de uma mão de pessoa adulta, amedrontam-lhe as árvores gigantescas e até as gotas de chuvas que caem como meteoros. Enfim, essa escala natural desmesurada nos empequenece perante esse mundo selvagem e hostil.

O barco de Fitzcarraldo, com problemas.© Divulgação.

Por outro lado, a beleza tropical tão vendida pelas agências de turismo não interessa ao diretor. Aos olhos de Herzog, a formosura amazônica é obscena, incompleta e fora dos cânones estéticos. Por exemplo, revela que “as bananas estão a ponto de reventar de crescimento, impudicamente sexuales”. E a morte está sempre à espreita, pois “há tal desperdício de vida na selva”...

É evidente que a Amazônia reflete as inquietudes existenciais do cineasta, por isso se sente atraído por este cenário telúrico. Somente ali os delírios febris de Herzog e de Fitzgerrald cobram sentido.


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