polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

O silêncio de Clarice

Será o silêncio o texto mais poético e o parecer de sentido mais completo no mundo, que pode sim ser construído, lido e interpretado?


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Aula de Estéticas do Cinema, a professora diz: “Não voltem aqui sem Um Amor Conquistado”, apesar de eu ter pensado em chegar à aula com o coração em festa, após ter conquistado “o amor”, ela se referia a leitura do conto da Clarice Lispector. Já havia gostado do título, certamente, chegaria em casa e leria em seguida, depois de comer alguma coisa, estava com fome. Comi pelo caminho mesmo, estava realmente com fome. Cheguei em casa e li. Em algum momento uma frase deu aquele soco no estômago, como diria Clarice: “Sei mais silêncio que palavras”.

O silêncio expressa o estado da alma, aplicado em um contexto ele diz se estou triste (quero me distanciar do mundo), feliz (quero apreciar o mundo), conformada (quero só ficar no mundo), apaixonada (quero sentir o mundo). Partindo do pressuposto que a construção da subjetividade e afeto estão presentes nas relações de linguagem, o meu silêncio é a minha representação de mundo, que pode ser analisado como um manifesto que vai além do texto linguístico.

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Também sei que com o “mais silêncio que palavras” criam-se conflitos, polêmicas e cumplicidade. Tudo dentro de mim, transmitido aos meus objetos-valores, que privados de conteúdos não conseguem encontrar respostas para uma análise de sentido. Torno-me sem sentido, com tudo sendo sentido naquele silêncio, naquela representação, que nunca é vazio: “Sei o que tenho a dizer, não me importa, já me conheço, quero te ouvir”. Nem sempre o receptor entende, nem sempre ele quer se ouvir e permanecemos observadores do contexto.

A cumplicidade nos silencia, deixa a respiração falar, às vezes o coração acelera com a possibilidade de fratura, por qualquer diálogo, que se inicia com uma frase previsível “passou a chuva, quer mais café?”. Também tem o silêncio que angustia, quando se está longe e o celular não toca, a notificação não chega, “o que será que acontece?”, não te vejo em silêncio e não sei o que nele existe, sem contexto a gente sofre, arranca os cabelos e espera.

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Somos seres de linguagem e somente por meio dela aprendemos o mundo e o interpretamos. Será o silêncio o texto mais poético e o parecer de sentido mais completo no mundo, que pode sim ser construído, lido e interpretado?

Hoje o meu plano de expressão e conteúdo é silêncio, com muito amor e carinho.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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