polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Para ler aos trinta e sentir por toda vida

Desejo, realidade, frustração, tudo anda junto, nisso tudo o pensamento toma conta, imagina o que foi, o que não foi, o que poderia ter sido, continuamos os mesmos, parados em nós mesmos, esperando ser passado, esperando ter futuro e desperdiçando o agora.


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Estou sempre em busca de experiências, acredito que a vida é isso, ter experiências, estamos sempre em busca do sentir, sentimentos que nos dizem: seu coração bate, narrativas se constituem, histórias e memórias te constituem.

Ir ao cinema, ao teatro, ler um livro, ouvir uma música, trazem experiências únicas. O mesmo filme me provoca diferentes sensações em dias diferentes, o mesmo acontece com as músicas, textos e palcos. As mesmas narrativas guardam segredos que só são desvendados pelo estado emocional de quem experimenta.

Nos últimos dias assisti à peça “Para Ler aos Trinta”, montagem da Companhia Projeto Z, da Diretora Nina Rosa Sá. A sinopse dizia, “o texto retrata, de maneira lacunar e sugestiva, as inquietudes de uma personagem fendida em duas: uma que escreve pequenas cartas e uma que as lê, como se as palavras pudessem modificar o passado”. Ainda complementava que tudo isso se experimentava “através da dramaturgia não linear de Lígia Souza Oliveira, o descompasso entre o desejo, a realidade, e a frustração decorrente da constatação de diversas projeções que não se concretizaram”.

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Não sou boa para descrever sinopses, odeio quando me perguntam, “qual é a história?”, nunca sei dizer, ela se passou dentro de mim, eu amo ou odeio, não pelo o que posso descrever, mas sim pelo o que posso sentir naquela experiência narrativa. Sobre “Para Ler aos Trinta”, posso dizer que os 78 corações da personagem que dançam pelo palco, também dançam em mim, as palavras que são usadas como uma máquina do tempo, passam por mim como tsunamis, nunca sabemos como usá-las e quando usamos, sempre usamos, fazemos escolhas, não-escolhas e narramos nossas vidas, nem sempre escrevemos a melhor história, nem sempre rabiscamos e escrevemos de novo.

Desejo, realidade, frustração, tudo anda junto, nisso tudo o pensamento toma conta, imagina o que foi, o que não foi, o que poderia ter sido, continuamos os mesmos, parados em nós mesmos, esperando ser passado, esperando ter futuro e desperdiçando o agora.

No fim de todas as experiências estéticas, a narração é sempre uma, é sentir o que vive em si mesmo, é compreender o dito, sentir o não dito, organizar imagens dentro de nós e conversar com nossos corações. Experiências que chegam como cartas, contam histórias e guardam subtextos que se harmonizam entre a imaginação e o entendimento, imprevisível, incontrolável.

As experiências discutem comigo, entre o sensível e o inteligível entro em acordo: sou o que sinto, o que me afeta e me agrada. Concordo com Kant, o que importa é o que faço em mim mesmo com as representações que percebo, sem ao menos compreender mediante a razão o que observo. Posso dizer, na minha “crítica da faculdade de julgar”, que “Para Ler aos Trinta” é um espetáculo belo, uma questão de sentimento e sensibilidade, naquele dia, naquela hora, que fui sua espectadora.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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