polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Um café com Werther e um telefone na mão

Na ânsia de deslocar-se e nunca pertencer desenha-se o mal do século. O quem eu sou perde a vontade própria, a liberdade interior é invadida pela rapidez, a cultura do venha o próximo.


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A ansiedade toma conta, a compulsão também, a velocidade da rotina hipermoderna transforma o ontem muito distante e o hoje urgente. A personalidade social é afetada de uma maneira que os comportamentos determinam os sentimentos, os efeitos dos amores, do modo de vida e dos vínculos. A hipermodernidade da incerteza provoca o caos, a angústia do tempo que não espera, é vilão, é a causa de todas as atitudes impulsivas, todas as dores precoces, os dez anos atrás que a gente lembra e diz “parece que foi ontem”, às vezes foi mesmo, tudo é efêmero, não quero que seja.

Na ânsia de deslocar-se e nunca pertencer, desenha-se o mal do século. O quem eu sou perde a vontade própria, a liberdade interior é invadida pela rapidez, a cultura do venha o próximo. O amor é doença, foco demais trata-se na terapia, certeza é ignorância.

Toda relação provoca uma análise do eu, ao olhar para o outro enxerga-se o reflexo. No excesso das relações efêmeras, os efeitos psicológicos são tão velozes que não se compreende mais a subjetividade, a personalidade é infectada, há um vicio pelo olhar social, a procura do que se perdeu no declínio dos vínculos.

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Para Couchot, o "sujeito trespassado pela interface é muito mais trajeto do que sujeito. No trajeto, todos passam quem fica está perdido, a bateria do celular acabou.

Na valorização imediata, é possível amar o durável? Dick Pountain e David Robins respondem que a contemporaneidade é marcada pelo descompromisso, o desengajamento e o frio. Bauman define "Cool" como a capacidade de fugir dos sentimentos, "de viver num mundo fácil que questiona e recusa vínculos possessivos".

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Com o celular na mão, na minha ingenuidade de acreditar em dias ensolarados e abraços aquecidos, fujo da racionalidade contemporânea, fico com os românticos, bebo um café com Werther e choro pelos amores que vivem no prenúncio. Minimizo os efeitos da flexibilidade e fluidez, no isolamento reconheço a impotência, a incerteza e a insegurança, diante do sentimento do eu e o medo de perdê-lo. Sou uma ultramoderna ultrapassada, meu amor é durável.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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