polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Eu quero entrar no seu buraco

Vocês sabem por que os buracos estão tão vazios? Está todo mundo muito vivo. Quando conquistamos todos os desejos é a morte. Acaba a busca, não tem tesão.


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Agradeço a presença de todos, é a minha primeira vez aqui, vocês já estão há algum tempo nessa vivência, me perdoem se eu passar uma má impressão, as primeiras impressões não são as que devem ficar, depois que a gente se conhece um turbilhão de impressões se multiplicam e desconstroem as primeiras impressões, que na verdade era só imaginário do que seriamos com a convivência, nunca dá muito certo, idealização, vocês sabem do que estou falando. Já idealizei tanta gente, mas nunca fiquei decepcionada, não que eles fossem o ideal, só achava melhor do que havia pensado, talvez eu não seja muito criativa.

É bom que façamos um círculo, não é pra intimidar, é para dar mais intimidade, alguém aqui tem medo de se tornar intimo? Sempre rola uns romances, não é? A juventude, as incertezas, os questionamentos, um dia vocês terão saudades. Não se arrependam, continuem assim, sejam íntimos, não precisam mudar só porque ganharam uns quilos, umas rugas e uns cabelos brancos. Eu já estou velha, é o que vocês pensam, eu sei, mas saibam, continuo fazendo as mesmas besteiras do início, talvez não sejam besteiras, sejam amores.

Gostaria de falar sobre o desejo, todos aqui desejam algo, desejam muitas coisas, tem quem queira um amor, outros querem um carro, outros querem ir para casa e parar de ouvir essa velha de vestido curto, outros adoraram meu vestido curto, não vamos julgar os desejos alheios. A gente tem um buraco, o desejo. Tentamos preenchê-lo. Sexo preenche bastante, uma discussão sociopoliticaculturaleconomica em que você se impõe também pode preencher o buraco, tem tanta discussão no Facebook, lá só tem gente querendo sexo e discutir sobre tudo, falando sobre nada ou vice-versa, está todo mundo vazio, tentando preencher o buraco.

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Vocês sabem por que os buracos estão tão vazios? Está todo mundo muito vivo. Quando conquistamos todos os desejos é a morte. Acaba a busca, não tem tesão. Vocês estão aqui em busca de algo, eu estou aqui em busca de alguma coisa para fazer de conta que o meu buraco está mais cheio. Às vezes eu coloco um monte de tralha, um cara bonitinho, que não preenche meu buraco e por isso me dá desejo, me mantém viva e eu acho que ele é a minha vida, me transformo em um “Chambinho”, um enorme coração ridículo, depois o cara vai embora, meu buraco fica mais vazio, fica ventando lá dentro, vento demais vocês sabem, corta, arde, planejo vários suicídios, não executo nenhum, pareço um “Zé Gotinha”, pálida em um posto de saúde. Um dia o vejo na rua e acabou o desejo, era muito pequeno para o meu buraco.

Vocês leram o texto que estava na Ementa? Vamos discutir a seguinte citação:

“Partindo do princípio de que o desejo é uma falta, diremos que o objeto que falta ao sujeito é o desejo do Outro. O desejo do sujeito - ou seja, aquilo que falta ao sujeito - é de suscitar a falta no Outro. Aquilo que falta ao sujeito é que algo falte ao Outro. O que faz falta ao sujeito é que uma falha atravesse o Outro, e para produzir isso o sujeito se oferece como causa do desejo do Outro, como aquele que cava um buraco no Outro e o torna desejante.” (LUSTOZA)

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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