polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Quente demais para Miranda July

Gostos que não se discutem, gosto pessoal e singular como um modo de relacionar-se com o mundo. Um gozo que passa, mas que volta enquanto for do gosto.


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A gente tem pressa, a gente quer o agora, cultuamos a velocidade e quando não é instantâneo não interessa, tem quem não espera. Se tiver que ser que seja agora.

Tenho pensado muito sobre o tempo, o cronológico, os dois, três, dez anos e aquele humanizado por mim, mais vínculo do que passagem.

Encontrei em Miranda July (Livro: No One Belongs Here More Than You) o que me fez concluir -

“Esse é o meu problema na vida, eu passo por ela correndo, como se eu estivesse sendo perseguida. Mesmo nas coisas em que só o que importa é a lentidão, como tomar um chá relaxante, eu o engulo como se estivesse num concurso de quem bebe chá relaxante mais depressa. Ou, se estou numa piscina aquecida com algumas pessoas e estamos todas olhando para as estrelas, eu serei a primeira a dizer: É tão bonito aqui. Quanto mais cedo você diz, É tão bonito aqui, mais depressa você pode dizer, Nossa, está quente demais para mim.”

- Não dá para viver deixando passar, seguiu em frente e deixou pra lá, tem pressa de uma nova vida. Seja como for, seja o momento, senta, bebe um chá e sente.

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Landowski fala do gosto de gozar, os prazeres mais simples, qual é o seu? Comer, viajar, ver um filme, conversar, ouvir (o outro, o silêncio, a música, o coração)? Também fala dos prazeres mais fortes, aquela intimidade na relação com o outro, no corpo a corpo da volúpia partilhada. Gostos que não se discutem, gosto pessoal e singular como um modo de relacionar-se com o mundo. Um gozo que passa, mas que volta enquanto for do gosto.

Reescrevemos Miranda July:

“Essa é a minha relação com a vida, eu paro por ela, como se eu estivesse sendo abraçada. Só o que importa é a lentidão, como tomar um chá relaxante, eu o engulo como se estivesse num concurso de quem bebe chá relaxante mais relaxada. Se estou numa piscina aquecida com algumas pessoas e estamos todas olhando para as estrelas, eu serei a última a dizer: É tão bonito aqui. Quanto mais tarde você diz, mais você fica.”

Transcenda a emoção, sem pressa, fica e vivência. Seja lento, mas não demora.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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