polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Unheimlich

Goliádkin, recebe o merecido caráter de personagem-tipo, em que representa uma coletividade. O personagem é marcado pela angústia entre seguir alguns valores morais e agir de acordo com os impulsos, tornando-se um sujeito (in) quieto e contraditório.


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“Eu não sou eu nem sou outro, sou qualquer coisa de intermédio, pilar da ponte de tédio, que vai de mim para o outro.” Mário de Sá Carneiro

Inspirado no romance homônimo de Fiódor Dostoievski, Richard Ayoade (Submarine) traz as vozes do escritor russo para “The Double”, com a melancolia e o duplo do individuo que Dostoievski representou em sua obra.

Jesse Eisenberg é Simon (e James), um homem introvertido, que sofre dificuldades para se relacionar e se vê ignorado pela amada Hannah (Mia Wasikowska). A chegada de James no escritório, onde Simon trabalha, provoca uma grande mudança em sua vida.

- Não era eu quando fiquei calada, não era o que queria ser quando falei demais. Eu queria falar sobre nós, mas só falei de batata frita e como eu gostava de batata frita, porque ela era frita, amarela e macia. Todo o caos no meu comportamento era só porque você quebrava as certezas dentro de mim. -

O segundo trabalho de Dostoievski foi o primeiro a ser considerado psicológico, abordando a questão do duplo. Goliádkin, recebe o merecido caráter de personagem-tipo, em que representa uma coletividade. O personagem é marcado pela angústia entre seguir alguns valores morais e agir de acordo com os impulsos, tornando-se um sujeito (in) quieto e contraditório.

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O duplo é um Outro, que observa o sujeito, até que causando inquietante estranheza, faz com que interrogue-se: “O que quer de mim?”. Um conflito psíquico cria o duplo, a projeção da desordem íntima é o preço a pagar pela libertação e o medo do encontro. O duplo atrela-se ao problema da morte e ao desejo de sobreviver. O amor por si mesmo e a angústia da morte tornam-se indissociáveis.

- A realidade e a fantasia se chocaram e eu não sabia como agir, uma angustia tomada pela vontade de amar, a vontade de amar que me matava e que me deixava mais forte para sobreviver. É sempre uma desordem causada pelo padrão do não dito, dos ideais de autoestima e degradação. As vozes dentro de mim, não deixavam nada ser dito. Eu queria ser previsível, fui vitima e culpada da sanidade e loucura que nos transformou. -

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O herói da novela dostoievskiana confronta-se com suas impossibilidades, seu insuportável e seu subterrâneo. Como suscita Bakhtin, há um dispositivo típico de Dostoievski em que o discurso transfere-se de uma boca para outra, forçando seu personagem a reconhecer-se em outra pessoa.

- Todos estão tentando, todos criam a própria sombra e os conflitos estão ali, dentro, limitando, consome. –

No conflito defensivo o unheimlich é tudo o que deveria permanecer secreto e oculto, mas que vem à tona. Está tudo estranho por ter sido muito familiar, estabelecido e reprimido. – Há muitas coisas que quero te dizer, eu sei como é, tentei falar, é como se estivesse sempre fora de mim, como se você pudesse colocar a sua mão dentro de mim, beijos e me cuida. -


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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