polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

As colisões de Frances Ha

"É preciso dizer como habitamos o nosso espaço vital de acordo com todas as dialéticas da vida, como nos enraizamos, dia a dia, num 'canto do mundo' considerando que a casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade."


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O filme Frances Ha, do movimento Mumblecore, apresenta o adulto pós-moderno, que segundo Stuart Hall abandona uma identidade dita estável e até unificada para abrigar várias identidades. Greta Gerwig interpreta uma adulta de 27 anos que faz da vida uma bela coreografia no clima Modern Love, de David Bowie. O objetivo de Frances é descobrir-se na experiência, os sentimentos estão acima dos padrões, objetivos estão sendo construídos em busca de uma identidade e novos espaços, que acolham representações de um mundo imaturo, incerto e instável em que novos signos são construídos.

Frances brinca de luta com a melhor amiga, típica brincadeira infantil. Elas planejam ter amantes e não ter filhos, sonham com futuros relacionados às artes. Frances planeja ser uma grande bailarina, Sophie quer ser uma famosa escritora.

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Frances recusa-se a morar com o namorado, em meio à discussão que resulta no termino do relacionamento, atende ao telefone, empolga-se, os amigos estão bêbados em uma festa em Chinatown, vai para lá.

Melhores amigos são evidentes na infância e adolescência, adultos são ocupados, questionável: as prioridades modificam-se. Sophie não quer mais morar no Brooklin, não irá mais dividir o aluguel com Frances, quer dividir o apartamento com Lisa, está localizado em sua rua preferida, em Tribeca.

Como sugere Bachelard a casa é "o nosso canto no mundo" e complementa: "é preciso dizer como habitamos o nosso espaço vital de acordo com todas as dialéticas da vida, como nos enraizamos, dia a dia, num 'canto do mundo'" considerando que a casa é "um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade". Sem poder pagar o aluguel, Frances conhece Lev e Benji, vai morar com eles; decide viajar para Paris sem dinheiro e sem planejamento, apenas transita pela cidade francesa; volta para o campus da universidade em que se formou, para trabalhar em eventos, cargo preenchido pelos alunos. Frances justifica-se: não faz muito tempo que estudei aqui, tenho só 27 anos.

A idade é algo que preocupa o novo recém-adulto, outro diálogo suscita a questão de tempo e espaço em que a Frances transita: “- Você parece mais velha que Sophie. - Muito mais velha, mas menos madura. Você tem cara de mais velha, mas não organiza suas coisas”.

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Frances é otimista. Ela cai, machuca-se e continua correndo, sem se dar conta que está sangrando. “- Você está ferida. – Eu sei, mas estou bem. Sophie tira sarro de mim, porque não consigo explicar meus machucados.”

Ao som de David Bowie ela dança pelo tempo e espaço, a vida, “eu estou parado ao vento, mas eu nunca aceno adeus. Eu tento”. A maneira que Frances olha para a vida determina como ela vivencia as experiências com o mundo, suas escolhas e comportamentos. Quando você encara a vida, encara o amor, encara as paixões, você se depara com os processos de colisões. O olhar reflete um tempo interior e exterior que depende e participa de um olhar social, condição da autoestima e da dignidade.

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“- É... é o que eu quero em um relacionamento... O que poderia explicar porque estou solteira. É difícil... é aquilo de que, quando você está com alguém e você ama essa pessoa, e ela sabe disso... e ela também ama você e você sabe disso... Mas é uma festa e vocês dois estão conversando com outras pessoas... e estão rindo e contentes... e você olha para o outro lado da sala e seus olhares se encontram... mas... não por possessividade ou nada exatamente sexual... mas porque... aquela é a sua pessoa nessa vida. E é divertido e triste, mas só porque essa vida irá acabar, e é também um mundo secreto que existe ali... em público, desapercebido, que ninguém mais sabe a respeito. É mais ou menos como dizem, que há outras dimensões ao nosso redor, mas nós não temos a capacidade de percebê-las. É isso que quero de um relacionamento... Ou simplesmente da vida, eu acho: Amor.”

Greimas suscita que essa fusão do olhar introduz o sujeito em uma experiência possível pelo arrebatamento da paixão, um efeito de linguagem, não apenas êxtase de sentidos, tremor incontrolável do corpo, fascínio da alma, mas uma perturbação narrativa, a fratura do sentido. O olhar que cria a faísca orgástica é um relâmpago passageiro, perturba a visão e permite ver de outro modo o que sempre esteve lá, no mesmo lugar que agora é outro. O retorno não se dá intocado, a luz que ofusca a visão fica retida em um modo de olhar transformado, agora preenche a espera tensa da experiência inquieta pelo susto do deslumbramento e a possibilidade de decodificar-se nos olhares que se cruzam, refletem, se amam e encontram o canto no mundo.

“I'm still standing in the wind, but I never wave bye bye, but I try, I try.”


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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